Virada sobre a Rússia no vôlei em Londres-2012 foi a maior emoção esportiva da minha vida

LONDON, ENGLAND - AUGUST 07: vôlei Fabiana Oliveira #14 of Brazil celebrates the win over Russia during Women's Volleyball quarterfinals on Day 11 of the London 2012 Olympic Games at Earls Court on August 7, 2012 in London, England. (Photo by Elsa/Getty Images)

Quem é fã de vôlei e torce pela seleção brasileira feminina sabe o quanto era traumático lembrar das semifinais dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, quando o Brasil liderou o placar no quarto set contra a Rússia por 24 a 19 e jogou fora todas as chances de fechar o jogo em 3 a 1, vindo a perder a sonhada vaga na decisão no tie-break. Uma mancha que só seria apagada oito anos depois, em Londres-2012.

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Nesse meio tempo, ganhamos o ouro olímpico em Pequim-2008. Era o fim das críticas, palavras maldosas que definiam as meninas do vôlei brasileiro, como “amarelonas”, “pipoqueiras” e várias outras. Deixamos tudo aquilo de lado na final contra os Estados Unidos. Vencemos várias edições do Grand Prix na sequência. Mas ainda existia a figura da Rússia, nossa algoz na semifinal de 2004 e nas finais de Mundiais em 2006 e 2010.

O time feminino chegou a Londres cercado de desconfiança. A maior polêmica foi o corte de Mari, campeã olímpica em 2008 e símbolo da eliminação em Atenas-2004 ao atacar para fora alguns dos match points brasileiros. Posteriormente, a jogadora contou à revista IstoÉ 2016 que não defenderia nunca mais a seleção brasileira e revelou que o grupo ficou rachado após seu corte, pois as atletas não teriam aceitado a decisão do técnico José Roberto Guimarães.

Fato é que a caminhada brasileira na capital inglesa foi de assustar qualquer torcedor. Primeiro, uma vitória extremamente suada por 3 a 2 sobre a Turquia. Depois, derrota por 3 a 1 para os EUA. Na sequência, um inexplicável revés por 3 a 0 para a Coreia do Sul. Depois, vitória por 3 a 2 sobre a China e, enfim, um 3 a 0 sobre a Sérvia. Antes dessa vitória, o Brasil só se classificaria se as norte-americanas batessem a Turquia. E venceram por 3 a 0, mesmo podendo perder e eliminar uma rival pelo ouro. Acabariam pagando caro por isso.

Classificado em quarto, o Brasil pegou logo de cara a líder da outra chave, a poderosa Rússia. Quem é torcedor da seleção brasileira sabe a ojeriza provocada pelas jogadoras do time rival, especialmente Gamova, que não economiza nunca em suas provocações ao Brasil. O favoritismo, até em função de tudo o que se viveu na primeira fase, era delas. As russas venceram seus cinco jogos e perderam apenas quatro sets. Nós tínhamos perdido dois jogos, vencido dois no tie-break e apenas um por 3 a 0.

LONDON, ENGLAND - AUGUST 07:  Liubov Shashkova #5 of Russia spikes the ball as Thaisa Menezes #6 and Tandara Caixeta #11 of Brazil defend during Women's Volleyball on Day 11 of the London 2012 Olympic Games at Earls Court on August 7, 2012 in London, England.  (Photo by Elsa/Getty Images)

Veio o duelo espetacular com elas. Vitória da Rússia no primeiro set, por 26 a 24. Bom sinal, pelo menos estávamos dando trabalho a elas. Ficou ainda melhor no segundo set, com uma vitória nossa por 25 a 22. As russas não se deixaram abalar e devolveram no terceiro set com um 25 a 19. Nossa missão era salvar o quarto set e levar para o tie-break. E as meninas do Brasil conseguiram, venceram por 25 a 22 novamente.

Aí começou o tie-break. Saímos na frente, mas as russas não deixavam o Brasil abrir vantagem. O esforço da seleção brasileira era evidente, e o time de Zé Roberto conseguiu fazer 10 a 7. Depois, 13 a 10. Estávamos a caminho de uma vitória que, daquele jeito, já seria incrível. Mas o destino queria que fosse ainda mais inexplicável, memorável. O técnico russo parou o jogo e conseguiu arrumar o time. Com bons ataques, principalmente de Sokolova, a Rússia empatou. 13 a 13.

O coração já batia a mil por hora. E um ataque de Fabiana para fora aumentou ainda mais a apreensão brasileira. Match point para as russas. O sonho do bicampeonato olímpico estava prestes a morrer de novo, como havia sido na primeira fase. Me lembro bem de ouvir a comentarista Virna, na Rede Record, falando que a levantadora Dani Lins deveria acionar mais a atacante Sheilla. Palavras de quem sabe.

Foi Sheilla quem virou e acabou com o primeiro match point da Rússia. Mesmo assim, o bloqueio brasileiro não funcionava. Não havia mais tempos a serem pedidos por Zé Roberto. Agora era tudo dentro de quadra. Tudo na raça. Saque russo para a vaga na semi. Boa recepção, Dani Lins aciona Sheilla e… ponto para o Brasil. Na sequência, novo bloqueio para fora. Outro ponto do jogo para as russas. Inexplicável aquela sensação. Tudo parecia ruir a qualquer momento. Mas veio Sheilla. Ponto. De novo.

Do outro lado, Sokolova jogava muito e não dava a menor chance para o nosso bloqueio. Quarto match point para elas. Não era possível. Não iríamos salvar mais um. Agora foi a vez de Thaísa. Ponto para o Brasil. Já estávamos no 17 a 17. E nem perto de acabar com o drama. Gamova usou bem o bloqueio brasileiro e conseguiu o quinto ponto do jogo para seu país. Mas se elas pareciam invencíveis no ataque, nós também éramos. Veio Sheilla e empatou de novo.

Goncharova atacou bem e conseguiu o sexto match point. Nosso ataque dessa vez não funcionou, Fernanda Garay não conseguiu botar a bola no chão. Ali o tempo parecia parar. Chegava, finalmente, a nossa vez de perder de novo em uma Olimpíada. A Rússia. soberana nos Mundiais, queria o título inédito olímpico. Mas não, aqui não! Jaqueline defendeu o ataque russo. Dani Lins achou Sheilla vinda do fundo de quadra. Imbatível. Ponto para o Brasil. 19 a 19.

Parecia interminável. Quantas horas teríamos que ficar ali sofrendo, com o coração na boca? Quantos dos famosos “comentaristas de ocasião”, aqueles que só sabem falar de outros esportes que não são o futebol a cada quatro anos, e sempre para criticar nossos derrotados e derrotadas, já não estariam prontos para soltar suas bobagens? E as russas, que tipo de provocação fariam? Teríamos a repetição de um trauma tal qual a derrota de Atenas-2004 para elas, ou talvez comparável até à derrota para Cuba na semi de Atlanta-1996?LONDON, ENGLAND - AUGUST 07:  Evgeniya Startseva #13 of Russia reacts after the loss to Brazil during Women's Volleyball quarterfinals on Day 11 of the London 2012 Olympic Games at Earls Court on August 7, 2012 in London, England.  (Photo by Elsa/Getty Images)

Por que nosso bloqueio não funcionava? Por que tanto sofrimento? Garay sacou. Achou o ponto certo na quadra. Péssima recepção e a bola não voltou. O match point, agora, era nosso. O primeiro. Será que iríamos desperdiçar, tal qual a Rússia fez com os seis que teve? Questões que vinham à cabeça em apenas segundos. Garay foi para o saque de novo. Forçou em cima de Sokolova, novo passe quebrado, um drama para as russas fazer com que a bola não caísse.

E ela voltou para percorrer um caminho que parecia ter sido escrito pelo destino. Sheilla já havia salvado o Brasil, fez sua parte. Agora era a vez de Garay defender, Dani Lins acionar Fabiana e a bola passar pelo bloqueio russo antes de cair do lado da líbero delas. A única chance brasileira de fechar o jogo estava convertida. As seis que elas tiveram viravam fumaça, pó. O Brasil exorcizava o fantasma russo e me dava a maior emoção esportiva de todos os tempos.

Ganhamos aquela Olimpíada ali. Os 3 a 0 sobre o Japão na semifinal foram prova disso. O ânimo era outro, a autoconfiança também. Na final, perdemos por um humilhante 25 a 11 o primeiro set para os EUA. Foi essa autoconfiança que manteve o equilíbrio brasileiro para vencermos por 3 a 1 e garantirmos o bi olímpico. Justamente derrotando aquelas que nos salvaram da eliminação ao vencer um jogo contra as turcas no qual poderiam tranquilamente perder. Coisas do destino.

Foto: Getty Images



Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Repórter e apresentador da TV Torcedores. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016.