Rodrigo Pessoa & Baloubet du Rouet: de pesadelo em Sydney a redenção em Atenas

Divulgação/CBH

Ao contrário do que milhões consideram, os Jogos Olímpicos, para mim, são muito mais legais e emocionantes de acompanhar. Como jornalista, entre escolher trabalhar na Copa do Mundo de 2014 ou preferir as Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016, não tenho dúvidas em escolher um evento em que o futebol é apenas “mais um” (embora eu ainda me considere frustrado por não ter ido a nenhum estádio do Mundial de futebol no Brasil).

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Olimpíada é tudo de bom, porque você não para de torcer para um conterrâneo, seja lá qual for sua modalidade. O dia começa com judô? Que legal! Mas e depois? Calma, que tem o vôlei de praia e o iatismo para acompanhar. Sem se esquecer do boxe à noite. Nos próximos dias, começa a natação e a ginástica. O tênis vem logo depois… Pois é, você fica louco, no bom sentido.

Se a primeira Copa do Mundo que me lembro exatamente de assistir foi a da França, em 1998, as Olimpíadas de Sydney/2000 foram marcantes na minha vida. Em primeiro lugar, por ter que “madrugar” na frente da tevê, assim como seria no Mundial do Japão e da Coreia, dois anos depois. Em segundo lugar, infelizmente pela falta de sorte dos brasileiros que saíram da Austrália sem uma única medalha dourada.

A última esperança veio com o cavaleiro Rodrigo Pessoa. Nunca tinha visto o sujeito antes, mas pelo que a “TV” dizia, era o grande favorito ao ouro inédito para o hipismo nacional e também naquela edição de Jogos Olímpicos. Com tantos insucessos e seis batidas na trave, o Brasil tinha no ginete, no último dia de competições, a chance de finalmente gritar “É ouro”. Naquela madrugada de domingo para segunda-feira, estava à frente da telinha acordado para acompanhar a final de saltos.

“Sequei” todos os outros cavaleiros e só bastava Rodrigo passar o percurso sem faltas que levava o ouro. Mas havia um obstáculo, e não era do percurso, mas sim seu fiel escudeiro. O cavalo, Baloubet du Rouet, veio a refugar e acabava ali a participação brasileira na decepcionante Olimpíada de Sydney.

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Quatro anos depois, continuei leigo em hipismo. E também em Rodrigo. Sabia que o cavaleiro se mantinha entre os melhores do mundo na modalidade, porém não parei para pesquisar mais a fundo. Chegou Atenas e lá estava eu mais uma vez na Globo vendo o ginete competir com o mesmo Baloubet du Rouet. Tremi ao ver o nome do cavalo quando anunciaram o brasileiro. “Pô, refugar em Sydney não foi o suficiente?”, pensei.

Após não ir bem nas fases preliminares na parte de manhã, Rodrigo passou o percurso à tarde de forma impecável e, assim, contou com as faltas de outros competidores para ir chegando ao topo da tabela. Acompanhei inteira a transmissão que foi de manhã até por volta das 16h, quando os resultados foram todos computados. Pessoa só não foi melhor que o irlandês Cian O’ Connor, que passou de forma impecável pelos obstáculos (incluindo minha “zica”) e ficou com o ouro.

Ao final do evento, não chorei, não abracei ninguém do meu lado, mas por dentro havia um sentimento de “dever cumprido”, até por compartilhar o sentimento de Rodrigo, que se redimia após a decepção de quatro anos antes. A prata foi revigorante. E pouco me importa o ouro que o brasileiro viria a herdar um ano mais tarde após a desclassificação de O’ Connor por ter sido culpado no caso de doping do seu cavalo.

Para mim, ter torcido até de forma contida naquele 27 de agosto de 2004 foi fundamental para, depois, vibrar com os ouros de César Cielo, Maurren Maggi, do vôlei masculino, de Arthur Zanetti, de Sarah Menezes, da prata de Esquiva Falcão, dos bronzes de Natália Falavigna, de Yane Marques, de Yamaguchi Falcão, de Adriana Araújo, e de tantas outras modalidades que me fazem parar o que estou fazendo para ficar ligado na televisão, seja de manhã, de tarde, de noite ou mesmo de madrugada.

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Foto: Divulgação/CBH



Esportista de hobby, mas jornalista de profissão. Trabalhou como repórter do O Estado de S. Paulo, Revista TÊNIS. Tênis Virtual e CurtaTÊNIS em coberturas nacionais e internacionais de grandes eventos.