Padre irlandês e espírito esportivo de Vanderlei foram marcantes em 2004

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Admito: nunca fui dos maiores fãs de atletismo. Acho bacana, admiro quem se propõe a ser atleta profissional deste ramo do esporte que compreende uma série de modalidades. Destas, sobretudo a maratona chama a atenção. Para correr 42km sem parar, 42.195 metros para ser mais exato, é preciso ser muito apaixonado. E paixão e espírito esportivo são coisas que sobraram em Vanderlei Cordeiro de Lima nos Jogos Olímpicos de Atenas, na Grécia, em 2004.

Para quem não se lembra, ajudo: Vanderlei Cordeiro de Lima liderava a maratona olímpica. Dos 42.195 metros, faltavam apenas 7.000. Apenas 7km separavam Vanderlei do esperado ouro olímpico. Até que o mais improvável dos improváveis fatos aconteceu. Vanderlei foi, literalmente, atacado pelo padre irlandês Cornelius Horan. O europeu empurrou Vanderlei para fora da pista e atrapalhou o desempenho do brasileiro.

A partir daí, a continuidade da prova de Vanderlei não foi mais a mesma. Contudo, o brasileiro conquistou a medalha de bronze. E não reclamou de ter sido atrapalhado. Espírito esportivo raro em um país em que derrotas são sempre justificadas por fatores externos em vez do reconhecimento da superioridade do outro. Não foi o caso de Vanderlei. Ele perdeu por um fator externo. E aceitou de bom grado o bronze olímpico, honraria das maiores do mundo esportivo.

Mas não parou por aí. Vanderlei Cordeiro de Lima foi agraciado pelo Comitê Olímpico Internacional com a medalha Pierre de Coubertin, prêmio que exalta espírito olímpico e esportividade demonstrados durante as competições olímpicas. Honraria para poucos, para os raros. Para Vanderlei.

“Na verdade, naquele ano havia um sonho que eu sempre alimentei um dia que era o de conquistar uma medalha olímpica. Não importava a cor. Então, quando cheguei ao término da prova ali no Estádio Panathinaiko e senti que já tinha ganhado o bronze, esqueci daquilo que tinha ocorrido no quilômetro 35. A minha conquista foi maior que a decepção de não ter ficado com a medalha de ouro. Para falar a verdade, eu nem estava mais preocupado com aquilo que o cara tinha feito. Nunca vou reclamar da vida. Eu só tenho que agradecer a Deus por tê-la me dado”, disse o maratonista em entrevista ao “Terra” concedida em 2014.

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Jornalista, editor do Torcedores.com. Passagens pelos jornais Metro, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Marca Brasil, Agora São Paulo, Diário de S. Paulo e Diário do Grande ABC.