Opinião: Pan-2015 marca fim da euforia esportiva da Record

Em março de 2007, a Rede Record sacudiu o mercado ao anunciar de maneira surpreendente que havia comprado junto ao COI (Comitê Olímpico Internacional) os direitos exclusivos de transmissão das Olimpíadas de Londres, em 2012. Começava ali um investimento tão grande quanto as provocações feitas à Globo, emissora que detinha o monopólio de todas as grandes competições internacionais e nacionais até então. A euforia foi reduzida após os Jogos, há três anos, mas parece ter morrido de vez agora, com o Pan de Toronto-2015.

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Mesmo sem os direitos em Pequim-2008, a Record mandou uma equipe para cobrir o evento na China. Era uma forma de marcar território olímpico, além de produzir na Ásia mais algumas matérias exaltando a exclusividade da Olimpíada seguinte. Foi também na cidade chinesa que a emissora de Edir Macedo deu outro golpe da Globo: anunciou a compra dos direitos exclusivos dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara-2011.

A euforia esportiva prosseguiu com o lançamento do Esporte Fantástico, bastante inspirado no Esporte Espetacular, da Globo. Até mesmo a contratação de Mylena Ciribelli, antiga apresentadora da atração global, tinha esse viés. Em 2010, a Record inovou ao ser a primeira emissora a dar grande espaço na programação aos Jogos Olímpicos de Inverno.

A Band já havia mostrado flashes em eventos anteriores, mas a Record mandou equipe de jornalistas para o Canadá, na cidade de Vancouver. Conseguiu números impressionantes de audiência, um feito que despertaria na Globo e na própria Bandeirantes um interesse maior em 2014. Se fez tanto sucesso com uma transmissão exclusiva de uma Olimpíada de Inverno, com esportes tão distantes da realidade brasileira, um país tropical, era lógico que Pan e Londres-2012 seriam um estouro.

Mas não foram. A Record se deparou com uma realidade dura. Para fazer sucesso com um evento, é preciso que a divulgação antes da realização dele seja ampla. O fato de a Globo ignorar em seus telejornais o Pan e a Olimpíada meses antes de seus acontecimentos praticamente reduziu o interesse do povo brasileiro nos eventos. Londres-2012 só foi sucesso em momentos esporádicos, muito menos do que o esperado. Guadalajara-2011 também havia sido.

Quando isso aconteceu, a Record já tinha em mãos os direitos exclusivos do Pan em 2015 e 2019. A concorrência pelos Jogos do Rio-2016, que incluiu no pacote as Olimpíadas de Inverno de Sochi-2014, foi realizada anos antes, em 2009.

Globo e Band deram um golpe ainda mais genial ao oferecerem uma proposta diferente, que previa exclusividade em TV por assinatura, internet e outras mídias, mas não em TV aberta. Foi a senha para que o COI declarasse o consórcio vencedor, repassando os direitos à Record na sequência.

Com isso, a emissora paulista terá uma Olimpíada com forte concorrência em TV aberta. Não bastasse, na TV fechada, que reúne um público mais amante do esporte, haverá 16 canais do SporTV e transmissão ainda pela ESPN Brasil, Fox Sports e BandSports.

O Pan de Toronto teve muito menos espaço que Guadalajara-2011. Segundo vários sites especializados em TV, a audiência da Record foi mesmo assim seriamente afetada, causando um espaçamento do SBT na vice-liderança geral. Não é difícil imaginar que o Pan de Lima, em 2019, fique nas mãos da emissora paulista apenas como uma forma de não deixar a Globo exibi-los, mas a tendência é de espaço cada vez menor.



Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Repórter e apresentador da TV Torcedores. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016.