Opinião: Morte de Bianchi deve deixar legado de bom senso na F1

MONTE-CARLO, MONACO - MAY 21: Jules Bianchi of France and Marussia walks across the paddock ahead of the Monaco Formula One Grand Prix at Circuit de Monaco on May 21, 2014 in Monte-Carlo, Monaco. (Photo by Mark Thompson/Getty Images)

O desfecho fatal do episódio Jules Bianchi, que ficou nove meses internado num hospital brigando por sua vida até o último sábado (18), mostra que a mais importante lição a ser aprendida por todos os envolvidos na F1 é o uso e abuso do bom senso.

LEIA MAIS:
F1: Pilotos prestam suas homenagens a Jules Bianchi

 Todos os acontecimentos verificados desde o GP do Japão mostraram que apesar do longo período com segurança total nas pistas, com traçados contando com largos espaços para saída de pista, excesso de punições e outras situações, muito pouca gente em Suzuka teve sensibilidade de pensar no aviso dado pela natureza.

Havia um tufão previsto para os dias da corrida, e que costuma provocar fechamentos de aeroportos, suspensão de atividades cotidianas, entre outras. Com isso, esperava-se que acontecesse um remanejamento da programação, como antecipação do horário da largada.

A prova estava marcada para às 15h locais (3h em Brasília) e todos os relatos vindos do Japão indicam que costuma anoitecer rapidamente, e a combinação de tempo carrancudo, com noite chegando prejudicaria a visibilidade dos competidores. Fazer a prova uma hora mais cedo poderia permitir uma visibilidade melhor para pilotos e torcedores. Contudo, os compromissos com a TV – principalmente na Europa -, forçaram a largada no horário marcado.

Outra situação foi que com a prova em andamento, Adrian Sutil perdeu o controle de seu Sauber na curva 7, já com chuva apertando novamente na volta 41 e bateu na barreira de pneus. Aquele local é perigoso o suficiente para que qualquer resgate demande um trabalho mais extenso e uma sinalização mais enfática do que a dupla bandeira amarela. Ou seja, era caso para Safety Car imediato. Porém, a espera por uma volta, bem como a entrada do trator foram a conjunção perfeita de perigo em estado máximo. Na passagem seguinte Bianchi perdeu o controle de sua Marussia e acertou o trator. Após isso aconteceu a entrada do Safety e do Medical Car.

A “cereja do bolo” neste triste episódio foi o fato de o piloto ser levado ao hospital na cidade de Mie, de ambulância – com a alegação de que o transporte via helicóptero poderia complicar o estado de saúde de Bianchi. Voltando ao começo desta análise, se o esquecido bom senso estivesse na frente de tudo, o fato de largar mais cedo teria permitido inclusive o uso de aeronaves para o resgate dele ou de outros competidores caso acontecesse algo mais sério, tanto que não me recordo de haver uso de imagens aéreas ao longo da prova.

Enfim… Jules perdeu sua vida e espera-se que sua morte não tenha sido em vão, mas o melhor legado que ela pode deixar a todos nós é o uso do bom senso. Em situações como as de Suzuka, em que exista a possibilidade de pouca ou nula visibilidade, que se antecipe a largada, ou que se adie o evento. A Fórmula Indy mesmo já mostrou em São Paulo que seu uso não faz mal algum. Como esquecer da prova de 2011, em que a chuva caiu forte sobre o circuito do Anhembi e provocou várias adiamentos de sua relargada até que ficou decidido que a prova só continuaria no dia seguinte, uma segunda-feira?

Pensar não custa nada, mas para muitos é um exercício dolorido. O fato é que por mais que doa, ela tem que ser exercida.

Crédito da foto: Getty Images