Formula 1, Jules Bianchi e a melancolia desnecessária

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O precoce falecimento de Jules Bianchi põe em xeque a confiabilidade dos procedimentos de segurança em pista da categoria e a inobservância da administração de Bernie Ecclestone. 

O francês Jules Bianchi nos deixou muito jovem. Aos 25 anos e com um contrato de desenvolvimento com a Ferrari, certamente o veríamos brilhar num futuro de certo próximo. Infelizmente não poderemos, e o sentimento de tristeza e perplexidade toma conta de todos os fãs da categoria e dos fãs do próprio piloto, que lutava bravamente por sua própria sobrevivência desde o fatídico final de semana da Formula 1 em Suzuka em 2014.

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Quem acompanha a categoria de perto sabe que ela já vinha caminhando rumo ao ostracismo de forma vertiginosa e que os reclames partiam de todas as partes. O público fã daquela que já fora a maior categoria do automobilismo mundial clamava por mudanças que pudessem tornar o esporte competitivo e atrativo novamente. Infelizmente este mesmo público não necessitava de um acontecimento tão extremo e infeliz como este para que atentasse ao fato de que o esporte é sim extremamente perigoso e que a inobservância de quem o promove pode torná-lo ainda mais perigoso.

De forma esdrúxula, a FIA eximiu-se de culpa no acidente de Bianchi, mas vamos aos fatos: O carro do alemão Adrian Sutil, que havia saído da pista uma volta antes e estava parado rente ao muro precisava ser resgatado para que a prova pudesse ter continuidade. É procedimento padrão que o Safety Car seja liberado em tais ocasiões, especialmente quando a pista está excessivamente molhada e com a visibilidade extremamente prejudicada, fatos estes que foram atestados por pilotos via rádio. Fato também é que o Safety Car não foi a pista e foram acionadas as bandeiras amarelas duplas, mesmo com os dispositivos de remoção às margens da pista, situação considerada de extremo perigo por pilotos, chefes de equipe e demais indivíduos que colaboram para a segurança nos grandes prêmios.

A mesma FIA despejou a culpa no próprio Bianchi, alegando que o mesmo não havia desacelerado o suficiente e que as bandeiras amarelas duplas garantiriam a segurança dos pilotos até que o procedimento de retirada do carro de Sutil fosse completado. Mais uma vez, a ganância de poucos cria sua própria metamorfose e se torna a galhofa em que, dias depois, ainda estaríamos esbravejando e argumentando contra. Mas infelizmente esta galhofa em específico foi longe demais.

E vamos a verdade: O Safety Car deveria sim ter sido posto em pista, dadas as circunstâncias climáticas e de iluminação do circuito, que só pioravam a cada volta, mas “o show tem de continuar”, e assim como em Ímola, 1994, Ayrton Senna fora retirado da pista o mais rápido possível de helicóptero para que a imagem da categoria não fosse manchada pela morte de um piloto em pista, eximindo de culpa qualquer indivíduo que supostamente pudesse estar envolvida no acidente que não o próprio piloto.

Após 21 anos sem registros de óbito na categoria, somos lembrados que o esporte que amamos e os esportistas que aprendemos a admirar estão o tempo inteiro sob risco constante. Ayrton Senna e Roland Ratzenberger foram mártires na necessidade de avanço tecnológico em prol da segurança dos pilotos e antes deles, nomes como Gilles Villeneuve e François Cevert também perderam suas vidas para que medidas pudessem ser adotadas, a passo de formiga.

Existe um clamor para que a emoção seja trazida de volta aos carros de corrida mais rápidos do planeta, mas novamente, uma tragédia há de ser o ponto norteador de tal mudança. A segurança dos pilotos deve sim estar em primeiro lugar, afinal, são eles que nos proporcionam o espetáculo e é com eles que nos identificamos de forma primária.

O impacto da do falecimento precoce de um piloto de extremo talento poderá ser extremamente desastroso para a categoria, que é amplamente conhecida por não saber lidar muito bem com incidentes de relações públicas e por ter um manager um tanto quanto antiquado e retrógrado em vários aspectos de sua administração. A ineficiência e a inobservância são os erros mais graves da atual gestão à frente da FOM e da FIA. Ora, quem não lembra do GP da Alemanha de 2014 quando o carro do mesmo Adrian Sutil ficou parado no meio da reta e a prova não foi paralisada simplesmente por que o líder do campeonato fazia volta mais rápida atrás de volta mais rápida? O Safety Car, que deveria ser procedimento padrão de segurança em tal situação, adivinhe só, também não foi posto em pista.

Quanto a nós, fãs do esporte e fãs de Bianchi, só resta torcer para que daqui pra frente não tenhamos que ler notícias tão devastadoras quanto essa que tivemos de ler nos últimos dias. Que não tenhamos também que acompanhar o sofrimento de um atleta admirado durante os nove meses em que esteve em coma, bem como o sofrimento de sua família e que, principalmente, não tenhamos de chorar a morte de nenhum ídolo, pois esta é a mais dura pena para qualquer fã de qualquer esporte.

É extremamente triste ver um atleta que admiro partir tão cedo e com tanto ainda por realizar em sua carreira. Não podemos prever o que Jules realizaria com outro maquinário em mãos que não uma Marussia, é verdade, mas sabemos que era capaz de muito mais. Extremamente capaz. Que possamos sempre lembrar daqueles espetaculares pontos conquistados por ele no principado de Mônaco em 2014 e que possamos tê-lo sempre em mente como exemplo de competidor e de indivíduo que lutava por seus sonhos.

Descanse em paz, Jules Bianchi.

Foto: Getty Images



Fanático por hockey e automobilismo, escrevo sobre ambos.