Opinião: Rogério Ceni tem boa parcela de culpa na atual crise do São Paulo

Ser são paulino e falar mal de Rogério Ceni é praticamente ser um homem-bomba. Você arrisca matar sua reputação com seus pares e ainda atingir todo mundo ao seu redor. Não me lembro de, em outras épocas, ter falado mal de Rogério Ceni, seja pelo motivo que fosse. Na verdade, nunca houve um motivo real para falar mal do cara que mais se dedicou pelo time ao longo dos anos que o defendeu.

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Essa dedicação, inclusive, fez de Rogério um vencedor, quebrador dos mais diversos recordes, ídolo e figura incontestável nas arquibancadas. No entanto, ultimamente, parece que ele mesmo tem se enxergado como alguém acima de qualquer questionamento também no ambiente do clube.

Em campo, pelo menos, suas atitudes demonstram isso. Incomodou bastante as declarações de Rogério Ceni após a goleada sobre o Danubio-URU, no Morumbi. Ainda na saída do gramado, o jogador disse que faltava “alma de Libertadores” aos seus companheiros, afirmação repetida naquela mesma noite, algumas horas depois, em entrevista exclusiva concedida à ESPN Brasil.

Por mais que o goleiro tivesse certa razão, não é salutar que um líder, principalmente alguém com a história dele no São Paulo, diga uma coisa dessas. Irritado com a postura da equipe em outros compromissos, posteriores àquele, todo mundo estava. A torcida, então, nem se fala. Mas nessas horas, criticar todo mundo após uma goleada de 4 a 0 me soa como o discurso do pai chato e rígido, que se irrita quando o filho tira um 9,5 na prova, ao invés do costumeiro 10.

E é aí que está um dos X’s da questão: Rogério Ceni não é pai de nada, muito menos do elenco. É uma referência para muitos, mas pai, não é e nem será. Pelo contrário: ele é um filho do São Paulo Futebol Clube, instituição cuja reputação e história são, e sempre serão, maiores que qualquer jogador, por mais ídolo que ele seja. O São Paulo não existe por causa do Rogério Ceni. O Rogério Ceni é que existe por causa do São Paulo.

Mesmo porque, antes de Rogério já vestiram aquela camisa Leônidas, Friedenreich, Darío Pereyra, Oscar, Serginho Chulapa, Careca, Cerezo, Leonardo, Raí, Müller, Zetti e tantos outros, que aposto, sequer ousam se imaginar acima do clube. É uma tolice tal raciocínio, inclusive.

Nem vou entrar nos méritos sobre sua aposentadoria, se já deveria ter acontecido, ou não. Todo Tricolor comemorou muito quando o “Mito” desistiu de largar as traves por três vezes consecutivas. Tecnicamente, apesar de algumas falhas recentes, o goleiro ainda está bem e comprova ter lenha para queimar.

Mas no sentido psicológico, Rogério Ceni é um mero mortal, como todo mundo, e a idade pesa: começou a ficar rabugento, chato, se achando dono das coisas. A cena dele entrando na frente de PH Ganso e Boschilia, para bater uma falta contra o Botafogo/SP deixou isso nítido. Sequer uma conversa com os dois meias aconteceu. O goleiro simplesmente chegou, pegou a bola, alegou ainda que ela estava murcha, pediu para trocar, colocou na marca e bateu.

O sorriso sem graça de PH Ganso no lance é o sorriso sem graça que todo neto dá quando o avô, que se acha jovem, tenta andar de patinete para “mostrar como se faz” e leva um tombo cinematográfico. E a cara de tacho que todo são paulino certamente faz, quando vê tudo isso acontecendo, é a cara de quem sabe que o rei está nu, mas tem vergonha de avisar.

Aos 42 anos de idade, faltando, segundo ele mesmo, pouco menos de quatro meses para a aposentadoria, tudo o que o Rogério poderia fazer neste momento pelo São Paulo seria ajudar a segurar as pontas de mais uma crise. Ao contrário, o goleiro, com sua vaidade exacerbada e endossada pelos sinais da idade, tem é piorado as coisas. Nunca deixará de ser ídolo, mas precisa assimilar que, se ele não pode ajudar, o melhor é sair de cena – assim como Muricy.

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Foto: Divulgação / São Paulo FC



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