Opinião: O retorno de Eurico e a bagunça no Rio

Vasco
Marcelo Sadio/vasco.com.br

Entre as centenas de figuras folclóricas do futebol carioca está Eurico Miranda e seus inconfundíveis suspensório e charuto. O presidente do Vasco da Gama ganhou notoriedade nacional ao se envolver em inúmeros episódios curiosos e escândalos que sacudiram o cenário do esporte ao longo dos mais de 40 anos de dedicação ao clube. Não coincidentemente, o esporte vive uma crise política no Rio de Janeiro meses após o retorno do dirigente ao Gigante da Colina.

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As controvérsias de sua trajetória começam já no seu segundo ano nas atividades administrativas do Vasco, 1969.

Reynaldo Mattos Reis era o presidente e não agradava a todos os conselheiros, porém era apoiado pelo então Vice Presidente de Patrimônio. Seria realizada uma reunião na Lagoa – Zona Sul da cidade – para decidir a cassação do mandato de Reis, mas a assembleia foi adiada devido problemas de energia do local.

No dia seguinte, o jornal O Globo, diante de acusações, publicou uma fotografia de uma mão desligando o quadro de energia. No título: “A mão de Eurico”. Apesar disso, Aghartyno da Silva Gomes assumiu a presidência interinamente.

Carlos Miguel Aidar, presidente do antigo Clube dos 13, chegou a declarar que se sentia traído por Eurico: “O Eurico era nosso interlocutor na CBF. Ele nos traiu contra nossa orientação e deu sinal verde para a CBF, que virou a mesa”. Essa manifestação surgiu meio ao processo de formação da Copa União de 87 e ele era acusado de fazer jogo duplo. Assim nasceu o polêmico cruzamento entre os vencedores do Módulo Verde e do Módulo Amarelo.

Um dos casos mais bizarros é o rebaixamento do Coxa em 1989. A equipe paranaense queria disputar sua partida decisiva do primeiro turno no mesmo horário que seus adversários diretos, o que o Vasco já havia pedido e conseguido, mas a CBF recusou e o jogo entre o time carioca e o Sport foi adiado em três dias. Justificando, Eurico argumentou que havia três jogadores do Vasco com a seleção.

Revoltado, o Coritiba se recusou a jogar e deixou o Santos esperando na Vila Belmiro. Os paranaenses foram suspensos por um ano de competições e perderam pontos, sendo rebaixados para a série B. O diretor de seleções da CBF era ninguém mais, ninguém menos que Eurico Ângelo de Oliveira Miranda.

Um ano depois, anulou até uma partida da Libertadores. Seu time do coração perdeu para o Atlético Nacional. Justificando que o árbitro foi ameaçado por narcotraficantes locais, remarcou a partida para Santiago do Chile. Apesar dos esforços, nova derrota.

O caso mais famoso é a escalação de Edmundo no segundo jogo da final do Brasileiro de 97. Nos primeiros 90 minutos, o Animal, artilheiro do campeonato com 29 gols, supostamente forçou uma expulsão: primeiro, ao jogar a bola em cima do adversário; segundo, ao agredir o zagueiro Kléber.

Com isso, foi a julgamento e no tribunal, Eurico Miranda conseguiu um efeito suspensivo na véspera do jogo para que o principal atleta do time entrasse em campo. A torcida do Verdão não imaginava que seu alívio terminaria antes do esperado. Há ainda dezenas de outros casos do mandatário cruzmaltino envolvido, como não poderia ser diferente, na atual queda-de-braço do Futebol carioca.

Duas causas estruturais da guerra nos bastidores do Campeonato Carioca são a reabertura do Maracanã e o retorno de Eurico ao Vasco da Gama. Após assinar o contrato com a concessionária que administra o estádio, o Fluminense deu à sua torcida o direito de ocupar o lado direito da arquibancada, antes sempre destinado à torcida cruzmaltina que não utilizaria o estádio continuamente, já que possui sua própria casa. A partir daí, os rivais discutiam sobre o uso da arquibancada nos clássicos entre as equipes.

Em 2014, nos três jogos entre os times, os tricolores ocuparam a direita da tribuna de imprensa. Uma semana após o seu retorno ao Vasco, Eurico reascendeu a chama da discussão e, logo conquistou sua primeira vitória extra-campo, os vascaínos voltariam a assistir as partidas da direita pelo menos no Estadual onde não há mando de campo. No Brasileirão, o mando é definido para cada clube e a polêmica pode retornar. 

A exclusão do mando de campo não prejudicaria só o time das Laranjeiras, mas permitiria à FERJ (Federação do Estado do Rio de Janeiro) “mandar todos os jogos”, estabelecendo o valor dos ingressos de forma independente. Depois voltou atrás e os clubes estão livres para negociar os preços em dias de clássicos, aumentando a irritação de Rubens Lopes, presidente da FERJ, contra Flamengo e Fluminense.

A situação se agravou quando Eurico e também o presidente do Botafogo (devido a razões ligadas ao patrocinador, o mesmo que batiza a competição) declararam apoio ao polêmico artigo 133. Nele, é prevista uma multa de R$ 50 mil para os clubes caso algum de seus profissionais fale mal da competição publicamente escancarando o autoritarismo da instituição organizadora do campeonato.

Acabou? Não! Eurico é incansável! Sugeriu que os ingressos para as partidas no Maracanã durante o Cariocão fossem disponibilizados entre R$ 20 (para jogos à tarde) e R$10 (para jogos à noite). Ótimo para os torcedores, péssimo para os clubes. Conseguiu a aprovação. Flamengo e Fluminense que investiram fortunas em seus programas de sócio-torcedor pra garantir aos torcedores a meia entrada quando o time fosse mandante, poderiam não fornecer o benefício, gerando um movimento de desassociação em massa em ambos os clubes. A administração do Flamengo, por exemplo, estimou em R$ 3 milhões os prejuízos, haja vista os custos por torcedor aos clubes de R$15 a R$30.

O consórcio responsável pelo Maraca e a dupla Fla-Flu se uniram contra a medida e sofreram com as retaliações da Federação, ameaçando tirar o maior estádio do Futebol brasileiro do calendário do Campeonato Carioca. A medida acabou caindo por terra e a mágoa de Rubinho cresceu.

A aliança entre o Vasco e a FERJ é explicada pela relação entre o presidente do time com o da entidade. Há quem diga que Rubinho chegou ao poder da instituição graças a Eurico e prejudicou o Vasco no âmbito estadual durante os anos de Dinamite (rixa história de Miranda). Em março, o técnico do Flamengo, Vanderlei Luxemburgo criticou a interação íntima entre os dois depois que o presidente da Federação assistiu a vitória do Vasco sobre o Nova Iguaçu em São Januário, no camarote de Eurico: “Tudo o que está sendo falado faz parte de uma rivalidade muito grande de Vasco e Flamengo. A única coisa que não faz parte é saber que o presidente da FERJ está frequentando o camarote do presidente do Vasco. O que não faz parte é o presidente do Vasco estar sentado na cadeira do presidente da Federação em algum momento. Isso tudo é que não faz parte do jogo do futebol”. O fato é: a empatia e a forte consideração entre duas pessoas muda completamente o rumo de negociações políticas ou econômicas. É o que está acontecendo.

Os três pênaltis para o Vasco e a expulsão duvidosa de Fred no Fla x Flu são o ‘Efeito Eurico’ de volta ao futebol mais charmoso do Brasil e da ira do autoritário Rubens Lopes. São apenas as primeiras páginas de um novo capítulo do livro da estrada de Eurico, novos vigarices estão por vir e, se for torcedor tricolor ou rubro-negro, torça por um outro heroico Friburguense no caminho de Eurico Miranda.

Crédito da foto: Marcelo Sadio/vasco.com.br



Dos radicais aos mentais, falando de esporte, cada um tem aqui o seu espaço.