Opinião: Ganso e seu inverno de cinco anos

Cruzeiro

A hibernação é um estado letárgico pelo qual muitos animais endotérmicos, em grande maioria de pequeno porte, passam durante o inverno, principalmente em regiões temperadas e árticas. Os animais mergulham num estado de sonolência e inatividade, em que as funções vitais do organismo são reduzidas ao absolutamente necessário à sobrevivência.

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Desde o primeiro semestre de 2010, pode-se dizer, metaforicamente, que Paulo Henrique Ganso vive períodos de hibernação. De provável camisa 10 da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2014 a jogador contestado. Cinco anos após a temporada memorável com o Santos que encantou o Brasil, ao lado de Neymar e Robinho, o meia vive um dos momentos mais conturbados de sua carreira.

A partir disso, Ganso viveu de lampejos, despertando de longos invernos, reacendendo as expectativas de que o seu bom futebol retornasse de vez. Fato que não vingou, pelo menos até agora.

Muito se discute o motivo do rendimento do jogador cair tão significativamente. Tirando poucas partidas com o Santos, após sua lesão no joelho, e uma boa sequência no segundo semestre de 2014, pelo São Paulo, Ganso pouco vez dentro de campo. Lesões e problemas fora de campo à parte, leia-se a queda de braço que forçou sua saída do Santos em 2012, uma possibilidade ganhou força para que o atleta voltasse a ser acima da média: uma mudança de posição.

A ideia defendida por técnicos e ex-jogadores é de que atuando como volante Ganso seria mais participativo e retomaria seu bom futebol. O pensamento é válido, visto que o bom passe e a visão de jogo são as principais características do meio-campista. Mas em contrapartida, a marcação seria um problema para o jogador, já que por origem a marcação nunca foi seu forte. Tudo passaria por adaptação e aplicação tática, tanto do esquema formado em torno do jogador quanto do próprio Ganso, que teria de se aplicar para exercer a nova função. Demandaria tempo, e na atual fase do São Paulo esse fator é escasso para testes, ainda mais se tratando de apenas um jogador.

A sua posição dentro das quatro linhas é o que menos importa no atual momento. Mais que isso tudo, o jogador precisa mudar sua postura. Quem viu o camisa 10 que chamava a responsabilidade para si e resolvia quando era preciso, hoje encontra um jogador irreconhecível, apático e muito vezes alheio ao que acontece ao seu redor.

Já não é de hoje que Ganso deixou de ser unanimidade. O saudosismo em relação ao seu passado deixou de ser argumento. E o despertar de tempos em tempos já não é o suficiente. Mantendo os ciclos de hibernação ao longo da carreira, logo será muito tarde para acordar.

Crédito da foto: Divulgação



Das ruas ao Maracanã. Dos campos de terra aos gols de caixote. Futebol é nossa religião. Jornalista, 22 anos. Tatuí l SP.