Opinião: Falta a tônica literária de Nelson Rodrigues no jornalismo esportivo

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Nos tempos em que o esporte, no caso, o futebol, começava a ser aclamado como uma modalidade unificadora de raças e paixões, e não apenas um entretenimento a preço de custo como é nos dias atuais, a crônica esportiva costumava fazer textos bem mais detalhistas, tentando explorar aspectos que nem mesmo quem estivesse na arquibancada, somente acompanhando os jogos, poderia imaginar o que estivesse acontecendo além da bola rolando em campo.

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O realismo sempre contrastou com o literário no campo do jornalismo esportivo, sem dúvida. Os primeiros cadernos de esportes, bem como os artigos e textos pós-jogos sempre tentavam ressaltar pontos interessantes de uma partida, características de jogadores que fizeram ou não a diferença no momento, além de fatores extra campo que davam aquela “pitada” necessária de poetismo nos textos sobre o assunto.

Nelson Rodrigues é, em minha opinião, o melhor jornalista e cronista que o esporte nacional já tivera em anos. Apesar do fato dele ser míope, o que muitas vezes o atrapalhava na cobertura dos embates entre as agremiações, era tão preciso em suas narrações literárias quanto o faro certeiro de um exímio atacante, um “matador” dentro da conjuntura textual de suas próprias críticas.

Não é à toa que o “Fla-Flu” (clássico entre Flamengo e Fluminense, no Rio de Janeiro) ganhou tanta notoriedade e se eternizou no cenário esportivo, uma vez que Nelson, torcedor assumido do clube das Laranjeiras, soube descrever sentimentos em meio às realidades que observava quando o time estava jogando.

Existiram outros excelentes literários que souberam, mais do que ninguém, narrar os fatos que aconteciam no esporte unindo precisão com uma dose cavalar de emoção. Mas atualmente, o que vemos no quesito jornalismo é apenas o trabalho de cobertura sendo feito de forma precisa, porém, não tão profunda assim. São realmente poucos profissionais que conseguem dar vida a suas críticas, avidez essa que, para os mais velhos, falta em boa parte dos jornalistas.

Hoje, a maior parte das crônicas, quando a lemos não só em jornais, mas também na internet – e nisso, eu ausento a revista, pois é um dos veículos em que a matéria é trabalhada de outra forma, mais detalhista e com apuração mais aprofundada de resultados – é baseada nos fatos acontecidos somente em campo, mais pela questão da instantaneidade e da agilidade que os veículos utilizam para dar primeiro a notícia antes dos seus concorrentes.

Os exemplos que podem nos ajudar a entender melhor essa questão do emprego da escrita e narração literária no jornalismo esportivo estão nas Copas do Mundo. Em épocas atrás, era comum ver um relato tão descritivo, e sobretudo, riquíssimo em detalhes de jogos que até hoje são memoráveis, como a final entre Brasil e Suécia, em 1958, que valeu o primeiro título mundial a seleção canarinho.

Agora, o que se vê mais são os textos do pós-jogo, descrevendo os melhores momentos de uma partida e das duas equipes que se enfrentaram, fora os casos extracurriculares que aconteceram dentro de campo apenas.

O papel do jornalista esportivo, em minha opinião, não é apenas ser um relator ou apurar o que houve em determinado evento. É mais do que isso: é saber acompanhar e buscar outros pontos peculiares que podem ser explorados e atrativos para seu trabalho, o que pode fazer dele um diferencial em meio a tantos outros.

Claro, o resultado de uma partida, mais as análises dos times em campo e todos os fatores que envolveram aquele jogo são muito importantes, porém acredito que com um pouco de dinamismo, aliado ao gênero literário ou quem sabe, detalhista e observador, torna aquilo que você faz em algo notável e porque não, admirador, pois existem pessoas que se espelham e tem como referência os artigos bem alinhavados de autoria de profissionais de renome no mercado da comunicação.

Portanto, acredito que ainda falta um pouco mais de tônica literária ao jornalismo esportivo, não tanto quanto em períodos anteriores, mas quem sabe necessária para prender o público do começo ao fim e dar a ele um panorama preciso e amplo do que aconteceu dentro e fora de campo.

Foto: Reprodução



Jornalista, repórter e locutor, é natural de São Paulo. Ainda no período acadêmico, produziu o documentário "O Futebol Nacional", sobre a história do Nacional Atlético Clube, contando com as análises de jornalistas e especialistas a respeito da equipe no cenário do futebol brasileiro. Além disso, possui o site "Comunique Esporte", sobre jornal