Susie Wolff: a dura luta contra o machismo na Fórmula 1

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Em 2014, quando ainda chegava à F1 como piloto de testes, a inglesa Susie Wolff ouviu do mexicano Sérgio Pérez que ela seria “melhor na cozinha”. “Não, uma mulher ganhar de você não seria bom. Melhor na cozinha”. Essa foi a frase inteira dita por um competidor que já passou até pela McLaren, uma citação devidamente criticada e que gerou um pedido de desculpas posteriormente.

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Era um cartão de visitas. No circo da F1, provavelmente será difícil, a partir do exemplo de Pérez, que outros pilotos ou membros de equipe voltem a disparar comentários como esses.

Mas, entre o público que gosta da modalidade, o caminho ainda é longo. Bastou uma batida com o brasileiro Felipe Nasr, da Sauber, em um dos testes de pré-temporada, para desencadear uma série de piadas e comentários machistas nas redes sociais, que são a nova casa do discurso de ódio na humanidade.

Susie ainda luta contra um fator muito complicado para quem deseja fazer sucesso em um espaço dominado por homens: é considerada como uma mulher bonita, o que dá espaço a comentários de baixo nível e argumentos toscos como “só está lá por causa da aparência”, a velha muleta para desqualificar alguém por questões de gênero.

A piloto da Williams quebrou um jejum de mais de 20 anos sem mulheres em fins de semana oficiais na Fórmula 1. A última havia sido a italiana Giovanna Amati, em 1992. Será que duas décadas sem nenhuma presença feminina não é, por sí só, um sinal bastante evidente da falta de espaço e oportunidades?

Há quem diga que mulheres não pilotam no mesmo nível que seus colegas homens, usando como exemplo justamente o baixo desempenho delas nas poucas vezes em que participaram de corridas e treinos na Fórmula 1. O argumento é inválido e nada tem a ver com gênero. Isso está relacionado justamente à baixa presença feminina no automobilismo, de maneira geral.

Pense nas Olimpíadas: por que o Brasil tem um desempenho tão ruim toda vez que participa de modalidades que não são populares, como canoagem, esgrima, ciclismo de estrada?

Porque pouquíssimos brasileiros praticam esse determinado esporte, sendo impossível haver um campo de comparação e competição capaz de fazer com que os atletas sejam cada vez melhor. Sem incentivo interno, alguns poucos heróis conseguem chegar aos Jogos Olímpicos, mas não com a mesma capacidade de competição que os grandes atletas de cada modalidade.

Assim é com as mulheres na Fórmula 1. Desde sempre, elas são condicionadas a acreditar que esporte a motor é “coisa para homem”, e muitas nem chegam perto de um carro de corrida. As poucas que vencem essas barreiras são como os atletas brasileiros citados no parágrafo anterior. Superam uma enorme cortina de ferro invisível, mas ainda não conseguem disputar para ganhar contra os demais.

Tudo tem um começo. Susie Wolff começa a puxar uma geração de mulheres que dentro de alguns anos poderá até ter resultados melhores. O importante é que se tenha em mente que o fato de ser mulher não constitui, de jeito nenhum, algum tipo de inferioridade competitiva em relação aos homens. E comentários machistas que ironizam a presença delas nessas competições só ajudam a piorar o quadro. Sim, a mulher pode!

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Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016. Também colabora com o ONDDA, site "irmão" do Torcedores.com.