Como investir o fundo de legado da Copa?

Mobilidade urbana, crescimento da economia, exposição da imagem do país no exterior, desenvolvimento do turismo, estádios de primeira linha, esses são alguns dos legados de quem defendia a realização da Copa do Mundo no Brasil. Pouco mais de meio ano depois da final entre Alemanha e Argentina, medir como cada um desses itens vem beneficiando a população no pós-Copa é uma tarefa complexa e que requer profundas análises, um desses legados, porém, é mais fácil de medir e tem números bem definidos: O Fundo de legado da Copa, uma verba de US$ 100 mi colocada à disposição pela Fifa ao país que sediou o evento para o desenvolvimento do esporte no país.

A responsabilidade pela administração da verba é da federação de futebol local, no caso, a CBF e o dinheiro, segundo o secretário-geral da FIFA Jeróme Valcke não haverá desvios “é impossível usar o dinheiro fora de nossas regras, nem um único centavo será utilizado sem que a Fifa saiba”, garantiu o dirigente na coletiva de imprensa de divulgação do Fundo. O planejamento inicial diz que, 60% dos recursos serão destinados à infraestrutura, majoritariamente na forma de CT’s nos 15 estados que não sediaram partidas do mundial, 15% para o futebol de base e 15% para a prática das mulheres os outros 10% projetos sociais, logística e saúde pública.

Alguns dos CT’s já começaram a ser construídos, caso de Pará, Rondônia, Tocantins, Alagoas, Piauí e Sergipe. Não há informações oficiais sobre como os 30% da base e das mulheres serão investidos, logo, fica a pergunta: Como utilizar esse dinheiro? Com a palavra gente que entende do riscado.

Thiago Scuro
Facebook/Divulgação

Thiago Scuro – executivo de futebol do Red Bull Brasil

“Na minha visão o papel da Confederação é a promoção, desenvolvimento e organização do futebol no Brasil. Com essa premissa deveríamos ter um plano de investimento de curto e longo prazo. Obviamente que para uma opinião mais profunda, precisaríamos ter mais detalhes e informações sobre o recurso, prazo do investimento e possíveis permissões. Analisando com as informações apresentadas, gostaria apenas de apontar algumas possibilidades de construção do plano de investimento.

Plano de curto prazo – Financiar competições de base, melhoria das estruturas físicas disponíveis para a base,  implementar um projeto de avaliação física e fisiológica para os clubes formadores e investimento em equipamentos e novas tecnologias

Plano de Longo Prazo – Capacitação Profissional, estabelecer uma escola de formação de profissionais para o futebol, que possibilite melhorar a qualidade intelectual no futebol de base. Investimento em projetos educacionais voltado aos atletas em formação e estabelecer um departamento de trabalho100% voltada para assuntos relacionados a formação de atletas, nos âmbitos técnicos, administrativos e educacionais. Sediar competições internacionais de base em diversos níveis e investir em ciência aplicada ao futebol. Produzir conhecimento e dados que possam ser absorvidos pelos profissionais que atuem em todos os níveis da formação de atletas.

Essas são apenas algumas alternativas analisadas de forma simples, obviamente que toda e qualquer ação deverá sofrer planejamento e análise profundos. Espero que esse recurso disponibilizado pela FIFA possa trazer evolução e melhoria ao atual cenário do futebol de base”

Alcides
Cnpq/Divulgação

Alcides Scaglia – Professor no curso de Ciências do esporte, na Faculdade de Ciências Aplicadas, Unicamp.

“Primeiro, nunca construiria CT´s. O valor é muito pequeno para construir centros com qualidade principalmente se dividido por 15, e, principalmente, estas divisões nunca são justas, sempre tem um componente político e de aproveitadores, pois se construirá um CT, administrado por quem? Que formará jogadores para quem? Ou seja, quem vai ganhar um CT, sem fazer investimento algum para retirar dele lucro com a venda dos jogadores? 15% com futebol feminino é piada.
Creio que o melhor investimento seria em construir uma universidade do futebol, nos moldes dauniversidade do futebol idealizada pelo professor João Paulo Medina, mas com a diferença da mesma possuir uma sede física (para alguns encontros presenciais), além de se configurar num centro de inteligência para o futebol brasileiro (que poderia englobar um museu), um hall da fama e tudo mais… A universidade do futebol teria de ofertar cursos de capacitação virtual (com uma parte apenas presencial, como palestras, encontro com notáveis, workshops…). A CBF, por meio desta universidade criaria os cursos de treinadores nível I, II, III e IV, como já acontece no mundo todo. Por fim, a universidade deveria criar um fundo de amparo à pesquisa sobre o futebol, em especial o futebol brasileiro, e assim cientificamente comprovar qual o segredo da qualidade da matéria-prima que se forma “naturalmente” (na verdade culturalmente) em nosso país. Creio que deste modo poderíamos investir bem o dinheiro (muito melhor que construir CT´s).”
Carlos Thiengo
Cnpq/Divulgação

Carlos Thiengo – Trabalhou na base do São Paulo como analista de desempenho competitivo e mestre em ciências da motricidade pela Unesp.

“Eu criaria um fundo de desenvolvimento do futebol para financiar diversas ações voltadas ao desenvolvimento do mesmo em âmbito nacional. Este fundo seria voltado a financiar várias ações como formação, profissional, campeonatos.

Porém, ele deveria ser concebido no modelo do FIES você pega o dinheiro como empréstimo para parte do empreendimento e durante a realização do empreendimento, por exemplo o curso, você paga apenas os juros da dívida e depois de concluído você começa pagar a dívida em um período de tempo. Por exemplo: financiar um intercâmbio. Depois do intercâmbio você tem 2 anos pra pagar o investimento de forma que o subsídio não acabe. Por exemplo, o “Joãozinho” faz o curso e ele devolve o dinheiro para que seja possível financiar o “Zezinho”. Como a formação profissional continuada nunca termina temos que fazer com que este dinheiro melhore a formação gere desenvolvimento e melhor condição para os indivíduos de forma que ele consiga retornar o investimento feito a ele e aumentar o valor do fundo. Se isso não for feito corremos o risco de o dinheiro acabar em um geração de profissionais”

No futebol feminino…

Foto: Cnpq/Divulgação
Cnpq/Divulgação

Osmar Moreira de Souza Júnior – Doutor em educação física com a tese “Futebol como projeto profissional de mulheres: interpretação da busca pela legitimidade”, Osmar é referência no Brasil quando o assunto é a estrutura do futebol das mulheres, o que é sintomático. Não é de se surpreender que o esporte delas esteja na situação que está quando para falar do assunto chamamos um homem e não uma mulher, isso já mostra muito sobre nossa sociedade, sem a representatividade fica ainda mais difícil para elas mudar o atual cenário. A crítica é direcionada, primordialmente, ao o autor desse post que só se atentou ao “detalhe” no momento da publicação.

“Em primeiro lugar seria importante investir em formação de recursos humanos para trabalhar com essas meninas, tendo em vista que não temos mão de obra qualificada para tanto (nem para os homens). Qualificando-se os profissionais seria importante garantir que os mesmos teriam condições atrativas para trabalhar no futebol de base e, para tanto, seria preciso viabilizar uma política de incentivo para que os clubes mantivessem equipes de mulheres e suas respectivas categorias de base. Para isso, entendo que precisaríamos de uma política de ações afirmativas de equidade de gênero, que responsabilizasse esses clubes por manter quadros de mulheres, mas ao mesmo tempo articulasse tais exigências com a vinculação de anunciantes e transmissão de jogos, para tornar o futebol de mulheres financeiramente sustentável. Outra iniciativa necessária para manter esse círculo virtuoso seria manter um calendário de competições regulares em níveis regional, estadual, nacional e internacional, calendário esse que iria dispender significativa fatia do orçamento. Falei das divisões de base, mas não desvinculei da categoria adulta, tendo em vista que a situação lá também é bem precária e o desenvolvimento de um depende do outro”

É quase unanimidade entre as fontes entrevistadas pelo IB nesses 10 meses de trabalho que a educação é a base de qualquer possível grande transformação no futebol brasileiro, nada que difere da sociedade em geral, isso fica evidenciado nas palavras acima. As declarações dos especialistas servem também como comparação com o que é/será efetivamente feito com o dinheiro, nós, obviamente, ficaremos atentos à utilização desses recursos e nossos leitores terão sempre informação disponível a respeito dos investimentos feitos com o Fundo de legado da Copa.

*Originalmente publicado no site Indústria de base



Jornalista preocupado com a formação humana dos jovens jogadores do futebol brasileiro. Desenvolvedor do site www.industriadebase.com que tem essa temática.