Saiba como “a melhor chance do Brasil ter uma campeã mundial” luta para não deixar o kung-fu

Texto originalmente publicado no site industriadebase.com
Antes de ser um blog sobre o desenvolvimento humano dos jovens que compõe a base do futebol o Indústria de Base é sobre o desenvolvimento humano dos jovens que compõe o universo do ESPORTE. O futebol é apenas o recorte mais óbvio e evidente, mais fácil de ser abordado até pela estrutura de trabalho do próprio blog, mas não é de hoje que refletimos sobre a seguinte questão: se é muito difícil para um garoto viver do futebol no Brasil, pela grande concorrência e outros fatores em que ainda podemos evoluir, imagina em outras modalidades… Imagina para uma garota… O IB teve a sorte de encontrar um dos raros talentos do esporte praticamente no seu quintal e não poderia deixar de aproveitar a oportunidade de tentar responder essas questões.
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Leiliane Oliveira, 24 anos, lutadora de kung-fu nas horas vagas e nas palavras do técnico Richard Leutz, da associação Garra de Tigre, “a melhor chance do Brasil ter uma campeã mundial no feminino” é uma araraquarense, de família mineira, que vive em Bauru e em ricas palavras conta como é tentar ser uma lutadora no Brasil. Depois de ler as linhas que seguem na próxima vez que você vir “uma atleta sorridente ou chorando de emoção no pódio olhando a bandeira do Brasil subir”*  vai saber “quanta dor tem por trás daquele rosto”*.
*Os aspas são da Leiliane 
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Torcedores.com – Conte como é sua relação com o esporte desde pequena. Você pratica/praticou outras modalidades? Quando começou a encarar os treinamentos como algo sério?
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Leiliane – Eu amo esportes, desde  as minhas primeiras lembranças. Minhas brincadeiras sempre foram relacionadas a atividades físicas, correr, brincar com bola, esconde-esconde, soltar pipa, rodar pião, bets, pega-bandeira, andar de bicicleta. Não tínhamos muitos brinquedos, então a gente inventava. Na escola eu jogava tudo o que podia na educação física, odiava essa separação de que meninas tinham que jogar voleibol  e meninos futsal. Então eu jogava um pouco de cada, e depois ia pro futsal com os meninos, geralmente era a única menina ali. Isso até os 10 anos. No ensino fundamental comecei a treinar na escola, treinava handebol, voleibol, futebol, às vezes basquetebol e ainda  encontrava aquele velho problema “isto  não é para menina”, “seu lugar é no vôlei” etc. Já no ensino médio fiquei apenas com o futsal e algumas amigas jogavam junto, os próprios meninos nos chamavam para jogar. Foi nesta época que comecei a treinar no time da cidade, jogar regionais, e campeonatos da região, mas não tinha muita oportunidade de aprender, pois sempre tem aquele time principal de meninas mais velhas. Eu era a reserva e aprendia de longe.
Treinamento na Associação Garra de Tigre, em Bauru.  Foto: Marina Beppu
Treinamento na Associação Garra de Tigre, em Bauru.
Foto: Marina Beppu

Quando acabei o ensino médio fui para Araraquara, joguei um ano no time da cidade e por isso ganhava bolsa em um cursinho particular. Foi essa oportunidade que me permitiu passar no vestibular em uma universidade pública já que eu não tinha condições de pagar um curso desses. Eu trabalhava em um serviço informal, estudava e jogava. Meu pagamento jogando era moradia, comida e a bolsa no cursinho. Lá tive meu primeiro contato com os jogos abertos, paulista, copa record e outros campeonatos importantes e foi onde realmente pude aprender. O treinador me deu oportunidades dentro e fora da quadra, ele trabalhava com um esquema de troca de quartetos e aprendemos a jogar em todas as posições e todo o time jogava. Aprendi valores e convivi com pessoas que guardarei por toda a vida, passei no vestibular e vim morar em Bauru. Desde o meu primeiro ano jogo no time de futsal da Unesp, cheguei a jogar Handebol também, mas só no começo. E continuo a participar de campeonatos como regionais, copa record, tv tem, e outros campeonatos da região, mas sempre com um time diferente.

Minha história com o Kung Fu começou no 3º ano da Faculdade. Eu sempre admirei artes marciais, mas não tinha e nem tenho dinheiro para pagar aulas, minha admiração ficava apenas nos filmes, desenhos, animes e no que lia sobre. Até que um dia conversando sobre isso uma amiga me falou da Garra de Tigre e que era gratuito, me passou o contato e eu fui conhecer a academia. Logo de cara já amei a luta, e quis fazer o Kung Fu tradicional, mas o  Sifu Richard me disse que eu tinha jeito para o Sanda e eu nem conhecia, nem sabia como era, assisti algumas aulas e então comecei a treinar. Não era meu objetivo inicial participar de campeonatos e treinar para eles, mas tudo foi acontecendo muito depressa e eu fiquei tão encantada que passou a fazer parte da minha vida e hoje é difícil me imaginar sem o Kung Fu.
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T – Quais são seus feitos mais importantes no kung-fu? O Sifu Richard nos contou que você venceu os Jogos Abertos em 2014 sem treinar e nunca perdeu um round, é isso?
Leiliane – Eu estava sem treinar por causa da faculdade e também havia decidido não competir mais por não ter dinheiro para bancar as competições e gastos, mas ele insistiu e também conversei com o pessoal da academia e amigos sobre isso, além da minha família. Decidi lutar de última hora, e o Sifu já havia me inscrito. Considero esses um dos feitos mais importantes, pois além de ser um campeonato importante e ajudar na consolidação do Kung Fu nos Jogos abertos ( Já que ele estava nos jogos como modalidade de apresentação e dependia de participantes para consolida-lo como modalidade fixa) também foi uma luta interna. Eu não me sentia preparada e sabia que esperavam uma boa participação. Treino e preparo psicológico contam muito em uma luta, e eu não tinha nem um e nem outro, minha família estava passando por momentos difíceis e junto com todas as preocupações eu não conseguia me concentrar. Passei mal na primeira luta, quase desmaiei, mas consegui terminar com 2×0 (rounds). Por um momento achei que não conseguiria continuar, mas não está em mim desistir, então continuei. Uma amiga foi de grande ajuda, me levou para almoçar, conversou, e esteve o tempo todo lá. Entrei na final mais motivada do que antes e novamente ganhei por 2×0, parecia outra pessoa, nem parecia que tinha passado mal. Eu considero todas as minhas lutas importantes, desde a primeira, aprendo muito com cada uma delas e são todas desafios diferentes. Acho que o que o Sifu quis dizer é que até o momento não perdi nenhuma luta e todas as de campeonatos ganhei por 2×0 sem perder algum round. Pelo menos é que o me lembro, ele sabe essa parte melhor que eu.
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T –  Qual sua relação atualmente com o kung-fu? Você continua treinando? Continua disputando campeonatos? Quais as dificuldades para quem quer ser lutador, ou atleta em geral, no Brasil?

Leiliane – São quase três anos com o Kung Fu, tive duas lesões e fiquei um bom tempo sem treinar. Eu competi apenas dois anos, esse será meu terceiro, bom ainda não sei. Estou com muitas matérias e estágios na faculdade, então só vou aos treinos quando posso, o que tornou-se bem raro. Eu não tenho tempo para um trabalho formal, então faço bicos e minha família me mantém aqui, o que é bem difícil pra eles financeiramente. Vivo com o básico e não tenho do que reclamar, mas é bem complicado conciliar isso com os gastos de campeonatos. Ainda não sei se vou competir este ano, meu foco no momento é terminar a faculdade, conseguir um emprego e me manter sozinha, depois disso poderei voltar a participar de campeonatos. Só poderei competir se conseguir a bolsa atleta que já espero há quase dois anos e nunca sai. Outras pessoas da academia também precisam e esperam por ela.

“muitos atletas representam suas cidades e o país, mas precisam pagar até o uniforme com o símbolo da Federação Brasileira. É difícil ser patriota e ter orgulho diante disso. Já desisti de um brasileiro e um convite ao pan-americano de Kung fu ano passado simplesmente por não ter dinheiro, isso é frustrante.”

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foto: Marina Beppu

Viver do esporte no Brasil é como viver de sonhos mas sem verdadeiramente realizá-los. Mesmo sendo a coisa que você mais deseja, é algo que você vai buscar com a certeza de que não poderá viver exclusivamente disso. É um sonho atrelado aos seus projetos de vida. Agora vemos alguns times de voleibol profissionais tanto masculino quanto feminino e alguns no basquetebol, mas se você não consegue um patrocínio de alguma empresa privada acaba por ter que bancar os gastos no esporte. Isso acontece no atletismo, nas lutas em geral, no handebol, com atletas deficientes e em todo e qualquer esporte brasileiro, há muitos requisitos para conseguir uma bolsa atleta e quando consegue é porque já teve alguns títulos importantes e no começo quem ajuda? Você, sua família e alguns amigos. Você tem que trabalhar para se manter, pagar inscrições, uniformes, viagens, hotéis e não tem retorno financeiro algum, muitos atletas representam suas cidades e o país, mas precisam pagar até o uniforme com o símbolo da Federação Brasileira. É difícil ser patriota e ter orgulho diante disso. Já desisti de um brasileiro e um convite ao pan-americano de Kung fu ano passado simplesmente por não ter dinheiro, isso é frustrante.

O esporte mais valorizado é o futebol masculino. Talvez por ser mais visto, ter mais financiamento e retorno financeiro para quem consegue seguir uma carreira e para quem patrocina, eu me pergunto como os outros esportes terão chance se não conseguem nem o investimento inicial? Só de comparar o futebol masculino e feminino já observamos um grande abismo, além de todos esses problemas no esporte também há  corrupção, recursos que nunca chegam a seu destino. Se tudo isso já é difícil em qualquer esporte, que não seja o futebol masculino ou o MMA para alguns poucos, imagina se você for mulher?

Enquanto homens jogadores famosos ganham milhões e fama, as mulheres jogadoras geralmente ganham um salário mínimo e se tiver sorte uma bolsa na faculdade, salve raras exceções como a Marta, cujo salário não foge de salários mínimos também. Você não vai encontrar uma mulher que jogue futebol/futsal e tenha ficado rica. Aliás também não vai encontrá-las em outros esportes, até mesmo homens. O único esporte capaz de enriquecer alguém é o futebol masculino, mas isso também vai depender se você for bom e tiver um bom empresário.

No campo das artes marciais as chances diminuem, homens têm grandes chances no MMA, mas outras lutas só ganham visibilidade se a pessoa chegar a uma olimpíada e logo são esquecidas porque algum time foi campeão paulista ou porque teve alguma briga de torcida organizada antes de um jogo qualquer.

“Sendo mulher ou homem, todos nós passamos por dificuldades na vida e no esporte, mas ser mulher em uma sociedade machista e com grandes preconceitos é mais difícil ainda”

Para acompanhar o esporte em geral você precisa pagar algum canal de TV a cabo. Vê um atleta sorridente ou chorando de emoção no pódio olhando a bandeira do Brasil subir e nem imagina quanta dor tem por trás daquele rosto, as é incrível como aquele momento parece compensar tudo. Você gasta o que não tem para estar ali, treina além do que pode, briga contra o tempo e aquele momento mostra que, mesmo com todas as dificuldades, você foi capaz de vencer e chegar ao lugar mais alto. Quando vejo uma medalha me lembro de toda a jornada até ela e tenho esperança novamente. Seja o que eu estiver passando ou vou superar.

Sendo mulher ou homem, todos nós passamos por dificuldades na vida e no esporte, mas ser mulher em uma sociedade machista e com grandes preconceitos é mais difícil ainda. Se você for um menino com o sonho de ser um profissional do futebol, você tem uma base, estrutura e todo um caminho a ser traçado, se for uma menina, encontra o preconceito só por ser menina e não há um caminho promissor em jogar futebol/ futsal para elas. Isso sem entrar nas questões relacionadas a orientação sexual que são ainda mais atingidas por preconceito e discriminação. O mesmo acontece nas lutas, ser mulher também dificulta conseguir um patrocínio, os patrocinadores sabem que os homens têm mais espaço e visibilidade. Antes de ações serem propostas para melhorar as condições dos atletas, medidas sociais e educativas precisam ser tomadas. Educação, respeito e caráter precisam urgentemente serem recuperados em boa parte da sociedade que parece te-los esquecido.

T – Até pela dificuldade em viver profissionalmente do kung-fu você provavelmente já se preparava em outras frentes. Quais são seus planos profissionais atualmente?

Leiliane – Eu sempre estive ciente de que não poderia viver do esporte. Eu estudo licenciatura em Ciências Biológicas na Unesp aqui de Bauru e meu objetivo no momento é terminar a faculdade, que já esta praticamente no último semestre, conseguir um emprego (mesmo que não seja na área) e continuar estudando, talvez uma pós graduação em outra área ou mesmo outro curso. Continuar ou não competindo dependerá do curso/rumo que a minha vida seguir e das oportunidades que possam aparecer.

– Gostaria que você falasse como é o trabalho do Richard no Garra de Tigre e sobre a importância social que ele tem.

Leiliane – O Trabalho do sifu Richard é muito importante não só socialmente como individualmente na vida de cada aluno, além dele ser um bom mestre e professor. A maioria dos alunos, assim como eu, não possuem condições de pagar por uma aula e a Academia por ser uma associação permite que essas pessoas aprendam sem gastos com mensalidades, apenas com uniformes . Apenas a equipe de competição tem os gastos com campeonatos. São crianças, jovens e adultos que passam a dedicar um tempo de suas vidas a uma arte marcial tão nobre e cheia de doutrinas, lá aprendemos a respeitar, ser paciente, tolerante, amigável, e a dividir o espaço (no mesmo ambiente também funciona a Academia de Judô e a de Karatê, todas com o mesmo objetivo social). Tudo o que aprendemos são lições que levamos para nossas vidas, pessoas que deixam de estar nas ruas, ou deixam o computador e a TV de lado para irem aos treinos, que encontram uma motivação para suas noites, uma melhora na saúde, na auto estima, no humor, na vida em geral. Pessoas que passam a enxergar as dificuldades da vida de outra forma e a enfrenta-las, fazem grandes amizades onde um ajuda ao outro, ensina e também aprende junto. A cada dia nos tornamos pessoas melhores, seja pelos ensinamentos do Sifu Richard e todo o conhecimento que ele nos transmite em relação o Kung Fu, ou pelas experiências e convivência com os alunos e suas diferentes histórias de vida. São 3 modalidades diferentes do Kung Fu que aprendemos lá, o tradicional ( Hung Gar), o Sanda e o Shuaijiao. Alguns alunos que estão na academia a mais tempo ajudam os iniciantes nas aulas, e todos reúnem-se em alguma ação social (como recentemente a doação de sangue) ou em alguma ação para ajudar a manter a academia e sua organização. A Academia Garra de Tigre com todas essas ações ajuda a formar o caráter de cada um, principalmente as crianças que estão em momento de formação educacional e tudo isso é refletido nas suas famílias, e aos poucos no bairro e até mesmo na sociedade.

A Garra de Tigre luta para sobreviver

Leiliane e o técnico Richard Leutz Foto:Arquivo pessoal/Facebook
Leiliane e o técnico Richard Leutz
Foto:Arquivo pessoal/Facebook
A associação Garra de Tigre corre o risco de acabar. O cargo de Richard Leutz e de outros coordenadores de modalidade na prefeitura de Bauru são irregulares por conta da nomenclatura e a descrição das atribuições, situação denunciada pelo ministério público no primeiro semestre do ano passado. Um projeto de lei foi redigido para regularizar os cargos e posteriormente abrir concurso mas ainda não foi votado pela câmara municipal. Caso a lei não seja aprovada os projetos mantidos pelos coordenadores que atendem cerca de 10 mil alunos, na Garra de Tigre são 120, irão fechar as portas. Já são 9 meses de indefinição acerca da situação dos profissionais, mas surge uma luz no fim do túnel “após a audiência pública realizada na última quinta feira, a tendência é que a proposta do prefeito seja aprovada, alguns dos vereadores contrários ao projeto, declararam que vão votar a favor, embora com ressalvas. Ficou claro com as apresentações dos projetos, que a aprovação, é questão de caráter social e extremamente necessária para a manutenção dos mesmos”, explicou Richard.
Leiliane teve contato com o Kung-fu já na faculdade, como seria seu desenvolvimento na arte marcial se ela frequentasse um projeto como a Garra do Tigre desde pequena?


Jornalista preocupado com a formação humana dos jovens jogadores do futebol brasileiro. Desenvolvedor do site www.industriadebase.com que tem essa temática.