Sabe aquele craque da base que não vinga no profissional? O efeito da idade relativa pode ser a causa

Originalmente publicado no site industriadebase.com

Não é difícil puxar na memória um jogador que se destacava na base e dava toda a pinta de ser o novo grande astro do futebol mundial, mas não mostrou um desempenho semelhante no profissional. Combinada com outras situações, afinal cada caso é um caso, o efeito da idade relativa(EIR) pode explicar o insucesso de alguns jogadores em repetir as brilhantes atuações das categorias de base no nível adulto. Quanto mais jovem o grupo de jogadores maior a vantagem para aqueles que nasceram nos primeiros meses do ano, como a divisão de idades muitas vezes é feita em faixas etárias de dois anos essa diferença se evidencia entre os mais velhos e os mais novos do grupo, com as diferenças nos desenvolvimentos físico, motor e mental potencializadas.

O IB conversou sobre o tema com o professor Marcelo Massa, líder do grupo de estudo e pesquisa em capacidades e habilidades motoras – EACH/USP “o modelo atual de categorização dos atletas de base parece contribuir para a ocorrência de alta variabilidade interindividual no que se refere ao desenvolvimento biológico. Desde os anos 80, análises das datas de nascimento de atletas (profissionais e de categorias de base) de diversos esportes e inclusive no futebol têm revelado maior prevalência de indivíduos que nascem nos primeiros meses do ano”, descreve o pesquisador. Um dos desafios de quem trabalha na base é tentar perceber o quanto a data de nascimento está influenciando no futebol apresentado por cada indivíduo e não desperdiçar talentos que não se destaquem por essa razão “a avaliação tem que ser muito criteriosa com relação à essa questão dos atletas que nasceram no segundo semestre, com aqueles atletas nascidos no final do ano a gente tem um cuidado muito maior”, avalia o supervisor da categoria sub-20 do Fluminense, Edgar Maba.

Lulinha, nascido no mês 4. Desempenho fora do comum na base, atuações normais no profissional Foto: Site Ceará/Divulgação
Lulinha, nascido no mês 4. Desempenho fora do comum na base, atuações normais no profissional
Foto: Site Ceará/Divulgação

O grupo da seleção brasileira no sul-americano sub-20 possuía 15 jogadores nascidos no primeiro semestre (65,22%) contra no 8 segundo (34,78%), na campeã Argentina eram 16 no primeiro(69,56%) e 7 no segundo (30,44%), as relações são parecidas. Sobre a seleção, o auxiliar-técnico da sub-20 do Brasil, Maurício Copertino, comenta “o efeito da idade relativa tem diferença só na sub-15. Nas outras já começa a nivelar, na categoria sub-15, de um modo geral, os garotos mais velhos apresentam um estado maturacional mais avançado e, consequentemente, possuem algumas vantagens antropométricas e cognitivas em relação aos mais novos”, afinal, os jogadores dessa categoria já estão muito próximos do pleno desenvolvimento físico. O que os números apresentados no começo do parágrafo e na pesquisa de Gérson Correia (publicada em 2009) apontam é que as oportunidades dos jogadores nascidos nos primeiros meses do ano são maiores nas categorias mais jovens e, estatisticamente, os que nascem mais próximos do final do ano são deixados de lado, nesse processo talentos que poderiam ter potencial para se desenvolver acabam sendo desperdiçados por não apresentarem desempenho satisfatório no ato das avaliações.

Quando aqueles que sempre tiveram vantagem por serem “os mais velhos da turma” atingem a categoria profissional, o desnível acaba, as habilidades que deveriam ter sido desenvolvidas sob dificuldade não existem e o “fenômeno” da base vira um jogador comum.

Marcelo Massa vê ainda poucas ações nos clubes para minimizar os efeitos do EIR “estudos recentes indicam que tanto no cenário nacional quanto no internacional o efeito da idade relativa é elevado, revelando que em termos práticos e efetivos pouco tem sido feito para dirimir essa problemática”, afirma o pesquisador, para ele “é preciso avaliar e interpretar o “estágio de desenvolvimento” em que cada jovem atleta se encontra, para depois estabelecer relações com o potencial de desenvolvimento individual futuro. Na prática, equivocadamente, muitos profissionais e dirigentes esportivos ainda superestimam muito os resultados, avaliações e observações dos sujeitos nascidos no começo do ano, ao passo que subestimam os resultados dos sujeitos nascidos nos últimos meses do ano – esse comportamento distorcido coloca em crise todo processo de seleção e promoção de talentos para o futebol”, afirma.

Alguns jogadores que podem ter tido a carreira no profissional prejudicada pelo EIR

Fran Mérida – 04/03/1990

Kerlon – 27/01/1988

Lulinha – 10/04/1990

Jean Chera – 12/05/1995

Élton – 07/04/1986

Lenny – 23/03/1988

Tiago Luís – 13/03/1989

Henrique – 27/05/1991

Carlos Vela – 01/03/1989

Tales – 20/01/1990

Alberto Paloschi – 04/01/1990

Lembra de mais algum? Venha interagir com a gente pelo Facebook ou pelo Twitter.



Jornalista preocupado com a formação humana dos jovens jogadores do futebol brasileiro. Desenvolvedor do site www.industriadebase.com que tem essa temática.