Opinião: Despreparo para receber deficientes frustrou minha primeira ida à Javari

A Independente de Limeira venceu, neste domingo (1), o Paulista de Jundiaí, por 1 a 0, gol de Alemão, lateral-direito do clube limeirense, aos 15 do primeiro tempo. O defensor invadiu a defesa adversária, dominou a bola no peito e chutou. Estava desenhado o meu primeiro jogo na famosa Rua Javari.

 

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O meu primeiro jogo na Rua Javari poderia ter sido marcado por diversas coisas. Sejam boas ou ruins. Ou uma mistura das duas coisas, não se sabe – ou sabíamos. Afinal, estávamos na famosa rua onde localiza-se o estádio do Juventus da Mooca.

Poderia comentar sobre o fato de, antes de ir hoje (1), conhecer o local, pois diziam ser um excelente estádio. Eu poderia falar também que havia sido combinado com a delegação do Independente de Limeira que iria entrar em campo com o Alemão, lateral-direito com passagem pelo meu Flamengo de Guarulhos. Poderia falar de tantas boas coisas. Falarei.

Andrezão, ídolo do Fla Guarulhos, autor do gol do título da A-3 e do acesso para a A-2 – além de ser capitão -, em 2008 tinha combinado comigo de que eu iria entrar em campo com os atletas da Independente junto com o Alemão. Ambos sabem a admiração que possuo por eles. E, por isso, tal ideia. Havíamos combinado no último sábado (31).

Chego à Rua Javari com o irmão do Alemão, meu tio e meu primo. Como não tinha ido não sabia como funcionavam as coisas por lá, questionei um dos fiscais da Federação Paulista de Futebol. Pois bem… Em um primeiro momento o fiscal em questão disse que não teríamos acesso ao vestiário – o que havia sido combinado também com o Andrezão, auxiliar técnico do treinador Álvaro Gaia.

Depois, disseram que não daria para acessar o estádio e, em seguida, ir à arquibancada. O pessoal do clube havia resolvido enquanto eu estava no vestiário com os atletas e a comissão técnica – assessor de imprensa e afins. Disseram-me que estava tudo certo.

Fui tentar entrar em uma portinha que dava acesso ao gramado – infelizmente não conseguimos fotografar. Um dos representantes da FPF nos barrou, mesmo com a presença da assessoria de imprensa da equipe do Independente Futebol Clube.

Disse que não poderíamos entrar. Alegou que, em outras palavras, “crianças são diferentes de cadeirantes”, quando dito pelo assessor do Galo de Limeira que quando o clube jogava em casa crianças entravam com os atletas. Não entendi meio bem, mas lembro-me de ter ouvido desse mesmo representante que teríamos de ter uma autorização da Federação e dos policiais por meio de um ofício ou documento, creio eu.

E o assessor do clube disse que iriam passar para o departamento jurídico da equipe para que, lembro-me vagamente, conversassem sobre. Infelizmente, entrar em campo com o Alemão, não deu. Fiquei muito triste, confesso.

Uma das coisas que mais me entristeceu também, foi um dos policiais que estavam escalados para cobrir o jogo, chegar para mim e dizer: “Se vocês entrarem em campo não dará para voltar (para a arquibancada). O único local é um demarcado para pessoas com deficiência, descoberto. Se chover, nós não nos responsabilizamos”. Além de ter dito que o próprio estádio não tinha acessibilidade.
Ficamos lá por alguns minutos, cheguei a tomar alguns pingos d’água. Eis que meu tio pergunta para um senhor que estava na arquibancada se poderíamos subir até lá. Subimos. E ficamos em um dos degraus (ao lado) da arquibancada – sem ter que pegar as escadas. E um lugar com pouca visão para o campo. Aliás, sequer consegui ver o gol do Alemão – não enxergo bem e o lugar onde estava não era favorável para tal. Ah, na comemoração ainda teve uma dedicatória especial para mim.
Ao fim do jogo, novamente fui ao vestiário cumprimentar o pessoal do clube, em especial ao Alemão e ao Andrezão. Ficamos lá aguardando ambos. O autor do gol foi dar entrevista. Um tempinho depois, fomos até a saída do vestiário e fui presenteado com uma camisa da Independente de Limeira, do próprio Alemão. Aproveitamos para tirar fotos, conversar e etc.

Poderia ser melhor? Poderia.

Poderia ter entrado em campo? Talvez, poderia.
Mas, esse é só o meu primeiro jogo na famosa Rua Javari. E é só mais uma das milhares lutas contra a falta de acessibilidade e inclusão nos estádios – que me impedem de frequentá-los. E – acessibilidade e inclusão – na vida também.
Crédito da foto: Arquivo Pessoal
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Projeto de jornalista. Se alimenta de seus sonhos através de caneta e papel. Com passagens pelo Voz Caiçara. Atualmente é colaborador do Torcedores.com e, quando pode, faz mídias sociais no PSG Brasil. Um amante do futebol de base.