Opinião: Mobilização para o Gre-Nal da mudança social

Gre-Nal

Em tempos de corrupção e desânimo geral com relação ao futuro do país, o fato de os dois mil ingressos disponibilizados para o setor de torcida mista no próximo Gre-Nal estarem todos vendidos é um alento para a civilidade no futebol brasileiro.

É também uma oportunidade para que possamos acreditar na quebra de barreiras culturais e na mudança do nosso país.

Como gaúcho, me sinto à vontade para falar do “nosso” bairrismo. Aquela história de que somos melhores em isso ou aquilo, infla o ego dos gaúchos, mas também causa uma deturbada relação com o resto do Brasil. Essa tal identidade regional exacerbada, geralmente atuando no sentido de distinção, quase nunca é pautada na realidade atual e sim num passado reinventado. Nos dias de hoje, o Rio Grande do Sul sofre os mesmos malefícios políticos e sócio-culturais do resto do país.

Então no futebol não seria diferente. O clássico Gre-Nal vinha se encaminhando para o mesmo desfecho dos grandes clássicos do país: restringir o acesso de torcedores visitantes, o famoso, clássico de torcida única. O que podemos dizer seria decretar a falência das autoridades para conter a violência entre torcidas.

Mas eis que o Internacional decidiu remar contra maré. Provando que os clubes devem liderar o processo de pacificação dentro dos estádios/arenas no Brasil, o colorado propôs as autoridades gaúchas e ao seu rival um setor misto para o próximo Gre-Nal.

Mas como esses colorados acompanhados de gremistas irão chegar em paz até o Estádio Beira-Rio?”, foi a minha primeira reação a noticia sobre o setor misto.

Para quem já foi a um Gre-Nal no campo do adversário, sabe do que estou falando. Ser escoltado pela Brigada Militar até as cercanias do Beira-Rio nunca foi sinônimo de segurança. No auge da “segurança”, o confronto entre os torcedores foi minimizado com a instalação de tapumes que adentravam ao parque adjacente ao estádio. Mas tudo isso sempre ocorreu dentro de um cenário hostil, onde torcedores eram colocados dentro de uma mesma “vala”, tratados como selvagens e perigosos.

O contrário também era verdadeiro. Colorados não tinham, por exemplo, a mesma “sorte” de ter um parque ao lado da antiga casa gremista, o Estádio Olímpico. Isso sem falar em confrontos no centro da cidade ou nas estações de trem da região metropolitana. É assim em dias de clássico no futebol gaúcho, é assim em todo o território nacional. A violência diária transvestida nas cores dos maiores clubes brasileiros.

Entretanto a proposta de torcida mista é um recado para a sociedade e autoridades. É finalmente um brado dos clubes manifestando a insatisfação contra a violência que tanto mancha o já caricaturado futebol brasileiro. Uma tomada de decisão acertada, que parte do princípio que os clubes são sim responsáveis por sua torcida e estádio/arena.

Os clubes são a força primária da mudança, porém sozinhos perdem sua força. Autoridades, políticos, polícias, canais de comunicação, etc. devem coordenar suas ações para inculcar na sociedade valores sociais perdidos e, especialmente, atuar na desmistificação em torno do futebol.

O futebol é sim uma forma de ascensão social, mas não deve ser pensado como o único caminho para se sair de uma condição de vida desfavorável. Além disso, torcer para um clube deve ser encarado como uma forma de entretenimento e não de guerra simbólica de poder.

Eu fico pensando nesses gremistas e colorados que irão juntos no Gre-Nal 404. Eu gostaria de estar lá! Ainda mais quando foi anunciado que o “Caminho do Gol” irá ser a marcha conjunta rumo ao estádio. Entretanto, eu temo pela segurança dessas pessoas a caminho do estádio.

“Será que algo de ruim irá acontecer?”, enrugo a testa me perguntando. “Como defender esses que poderão ser mártires de um novo capítulo do futebol brasileiro?”, reflito. “Mobilização social é único caminho!”, brilhou em minha mente.

Então é isso. Algo como #GreNaldaMudancaSocial tem que ganhar força nas redes sociais! Em vez de ficar alheio, esperando que uma grande mobilizações nacional aconteça, vamos começar a mudança em “casa”. Gaúchos, orgulhosos da sua terra, devem apoiar essa iniciativa. Para que assim o bairrismo comece a ter bases reais.

Porém é importante pensar que esse não é somente um ato bairrista, de gaúchos. Todos nós brasileiros temos que fortalecer esses torcedores, dar voz a essas pessoas que querem o bem e suprimir aqueles que pensam diferente. Eles/elas irão fazer história e deverão ser reverenciados, aplaudidos. Eles/elas estão tomando à frente num processo que pode ser longo, mas será benéfico para todos nós.

É tal mudança de atitude que tanto queremos ver entre nós. Aquela que começa no nosso interior para depois atingir o mundo ao nosso redor. Nos engajando em ações pontuais como essa, podemos transformar o nosso ambiente local e inspirar outras pessoas no nosso país. Ser exemplo e quebrar barreiras culturais para eventualmente mudar o atual panorama do nosso país.

Vamos lá! #GreNaldaMudancaSocial #GreNalDeTodos #SalveFutebol



Luis Henrique Rolim usa do sarcasmo e da linguagem popular para comer as pizzas do esporte. Futebol, surfe e Jogos Olímpicos são seus sabores favoritos. Ama os gordurosos assuntos extra-campo, e por isso tem colesterol acima da média. Debate ideias, não pessoas.