Opinião: Manuel Neuer era quem mais merecia ganhar a Bola de Ouro

goleiro
Getty Images

Nem Messi, nem Cristiano Ronaldo. Manuel Neuer mostrou ao longo da temporada que deveria ser o vencedor da premiação da FIFA e números comprovam: nunca existiu um goleiro como ele.

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“O goleiro está na contramão do futebol. Enquanto os outro dez jogadores da equipe andam para a frente, com o objetivo máximo de marcar o gol, o goleiro vê todo o fluxo da partida seguindo em sua direção, como um gladiador acuado na arena”. As palavras são de Paulo Guilherme no livro Goleiros: Heróis e anti-heróis da camisa 1 e retratam a constante luta da posição mais solitária do futebol. Mas Manuel Neuer foge a regra. Ele é mais um sempre andando para a frente e ajudando sua equipe a marcar um gol.

Apesar de vivermos um época dourada do futebol e ter o prazer de ver grandes craques jogar na linha e no gol, o alemão inovou e fez com que a já consagrada escola de goleiros de seu país desse mais um passo adiante. Suas habilidades com o pé e sua capacidade de armar e desarmar jogadas fora da área não são surtos que o arqueiro tem de vez em quando durante as partidas. São treinadas, planejadas e discutidas durante a semana dentro do Bayern de Munique. Na seleção, Neuer teve o aval de Joachim Löw para ser mais um armador do time quando a posse de bola estivesse no campo de defesas e também o líbero da equipe quando estivessem sofrendo um contra-ataque. Pode parecer pouco e um detalhes que não justifique a entrega da Bola de Ouro para o goleiro, mas não é.

No jogo mais difícil da Alemanha durante a Copa do Mundo, contra a Argélia, Neuer deu 21 toques na bola, recorde nas últimas três edições da competição. Durante toda a Copa, trocou passes fora da área 80 vezes, sendo a maior marca dos últimos 50 anos. Isso sem contar sua ativa participação surpreendendo os adversários e desarmando contra-ataques quando não haviam mais defensores para fazer o trabalho.

Claro que Messi, Ronaldo, Robben, Ribery, ou qualquer outro que seja indicado ao prêmio será sempre o favorito, principalmente se sua equipe tiver conquistado a UEFA Champions League, mas vale a reflexão: Como premiar um jogador individualmente em um esporte coletivo? Se o critério for marcas pessoais então o prêmio deveria ser dividido entre todos os artilheiros do ano, certo? Se o critério for títulos, então o prêmio deveria ser dedicado ao time, certo? A discussão é antiga e deixa brechas para muitas interpretações que nunca chegarão a um consenso. Mas existe uma verdade no meio disso tudo que não é levada em consideração: o ambiente da equipe em que o atleta desenvolveu seu trabalho ao longo da temporada e a contribuição trazida por ele para o esporte.

Messi e Cristiano Ronaldo jamais deixarão de jogar em grandes equipes, o que, convenhamos, facilita o trabalho na hora de empurrar a bola pra dentro. Claro que são os maiores jogadores do mundo e estarão sempre batendo recordes e proporcionando verdadeiros espetáculos a cada partida, mas prova de que existem outros 10 jogadores por trás dos grandes craques, foi a queda de rendimento do argentino com a reformulação do Barcelona desde a temporada passada que não o ajudou a alcançar os números monstruosos que sempre alcança. Nesse quesito, Neuer não está atrás dos concorrentes e também proporcionou verdadeiros espetáculos sendo, muitas vezes, mais decisivo do que os homens de ataque do Bayern e da Alemanha. Porém, o diferencial do goleiro é justamente a inovação que ele trouxe para a posição e provando o quão benéfica ela é com os títulos do Bayern e o tetra campeonato da Alemanha. E tudo isso jogando sozinho, lá atrás, no gol.

Já sabemos, de longa data, que os critérios da FIFA para suas premiações serão sempre duvidosos. É no mínimo curioso que apenas jogadores que disputem os campeonatos europeus possam participar da competição, por exemplo. Ou que, coincidentemente ou não, um dos três indicados será sempre jogador da equipe que venceu a UEFA Champions League. Todos nos lembramos também da Copa do Mundo quando Messi, e não Robben, foi anunciado o melhor jogador da competição causando espanto até para os Argentinos, que consideravam Di Maria e não Messi, como melhor jogador no país no momento. Como disse Taffarel, “no gol é assim, ou você joga, ou não joga. Não é como o lateral que pode jogar improvisado no meio, ou o volante que arruma um lugar no ataque. Goleiro precisa ter o dom para jogar nessa posição”. E isso, Manuel Neuer fez como ninguém.

Neuer foi o sétimo goleiro da história a concorrer pela Bola de Ouro. Antes dele, Gianluigi Buffon em 2006, Oliver Kahn em 2002 e 2001, Ivo Viktor em 1976, Dino Zoff em 1973 e Lev Yashin, o único a ganhar o prêmio, em 1963.

Crédito da foto: Reprodução/Facebook



Jornalista Esportivo formado pelo Mackenzie e pela UCLA com passagem pela Rádio Bandeirantes, fundador do perfil Arquivo do Futebol (@futebolarquivo) e jornalista do MLS Brasil. Escreve para o Torcedores.com desde 2014. Twitter: @paulogcanova