Mário Marra evita rótulos e diz: “a informalidade pode ser o veneno do rádio”

O jornalista mineiro Mário Marra é o comentarista principal da rádio CBN de São Paulo. No mês de janeiro, fará participações diárias na ESPN Brasil. Com boa experiência na TV, ele admite fascínio pelo rádio.

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Seu bom trabalho no dial lhe rendeu o rótulo de “Olho Clínico”, que ele prefere evitar. Em entrevista exclusiva concedida ao Torcedores.com, Mario falou do que gosta e do que não gosta no rádio.

Além disso, Mário Marra comentou sobre o novo desafio que irá enfrentar na ESPN Brasil, da importância de ex-atletas serem comentaristas e, claro, do futebol mineiro, a menina dos olhos dos gramados brasileiros neste momento e uma das especialidades do jornalista, co-autor do livro “Nós Acreditamos”, que narra a trajetória do Atlético-MG até a conquista da Libertadores, em 2013.

Confira como ficou a entrevista:

Torcedores.com – Você irá integrar a bancada de comentaristas do Bate-Bola, da ESPN Brasil, pelo período de um mês. Como enxerga essa oportunidade?

Mario Marra – Encaro como uma grande oportunidade profissional. Sempre fui de rádio, adoro o rádio e não me vejo longe do rádio. Entretanto, também trabalhei por muito tempo em televisão. Comecei na TV Horizonte, em Belo Horizonte. Fiz, por muitos anos, participações na Rede Minas. Fui comentarista do Sportv e Premiere de 2005 até 2010, em BH. E vejo que cada situação, cada oportunidade é diferente. O que importa mesmo é a sua dedicação, seu empenho. Tenho e sempre tive fascínio pelo trabalho da ESPN. Estar com eles é um privilégio e vou para lá todos os dias sem pensar no peso que o canal tem, mas pensando em curtir cada momento que posso passar.

T – Qual você acha que será o maior desafio deste período na ESPN Brasil?

M – O principal desafio é o desafio de todo o dia: estar ligado, bem informado. É claro que a televisão é um veículo diferente, mas procuro ser leve e não fazer drama. Que tudo seja de forma bem natural.

T – Sobre sua experiência no rádio: o que mais o fascina neste veículo? E o que mais te decepciona?

M – Gosto da velocidade do rádio. A possibilidade de entrar ao vivo por telefone, o dinamismo. Isso me fascina. Entendo também que a informalidade pode aproximar o ouvinte do profissional, mas a informalidade também pode ser o veneno do rádio. O compromisso não é com a forma de comunicação e sim com a notícia. Fico chateado quando percebo que uma notícia foi trocada pela gozação. Pode brincar, mas dá a notícia. Ela é mais importante. Outra coisa que assusta é o mercado. O mercado é o que mais me decepciona.

T – O que você indica para o jornalista em início de carreira que sonha em trabalhar em uma rádio? O que ele precisa ter para conseguir uma oportunidade?

M – A primeira coisa que um jornalista em início de carreira precisa entender é que vai ser difícil. Não dá para o jornalista achar que vai ficar rico. Vou acabar falando o óbvio, mas é importante demais que o candidato a jornalista seja uma pessoa de bom trânsito em várias editorias. Abrir a cabeça e não se deixar levar pelas diversas verdades absolutas é um grande segredo para a profissão e mais ainda para a vida.

T – Você foi apelidado por colegas de CBN como “Olho Clínico”, por se dedicar mais às análises aprofundadas do futebol. Por quê que poucos jornalistas se dedicam a transcender a análise superficial nos seus comentários?

M – Eu entendo que os rótulos não ajudam. Nem mesmo os bons rótulos. Temos que tentar falar algo que seja menos evidente. O futebol não é jogo de uns caras querendo fazer gol contra uns caras querendo evitar. É muito mais. Tem vida ali. Tem jogador que precisa vencer, jogador que não consegue ser profissional, clube que oprime, famílias com esperança… Eu, na maioria das vezes, procuro tentar contextualizar e acho isso um exercício bastante interessante.

T – Já ouvi muito consumidor de esporte reclamando das análises superficiais feitas por jornalistas esportivos, principalmente em televisão. O que você, na condição de alguém que ficou conhecido justamente por ultrapassar essas barreiras, acha dessa percepção do público? Ele tem uma certa razão?

M – Bom. Eu sou um felizardo por trabalhar na CBN que normalmente manda os profissionais para o estádio. Fiz, por exemplo, Juan Aurich x Santos, em Chiclayo, norte do Peru. Não tenho a menor dúvida: minha visão de jogo, do estádio, do significado daquela partida era bem diferente da visão de um torcedor que viu do sofá da casa dele. Mas não é disso que falo. Entendo que mesmo fazendo um jogo do estúdio, o comentarista precisa situar, posicionar, explicar para o ouvinte algumas situações e variações do jogo. Acho que a questão é conceitual. O profissional deve se perguntar: por qual motivo estou aqui? Meu ouvinte entendeu direito o que eu quis dizer? Devo ser mais claro ou estou sendo prolixo? Para mim é questão é bastante conceitual.

T – A contratação de PVC pela Fox Sports, no finalzinho de 2014, foi um dos grandes assuntos esportivos de dezembro no país. Pegando este cenário e somando à oportunidade que terás na ESPN Brasil: acha que chegou a hora do jornalista que entende mesmo do assunto ter o seu espaço ampliado?

M – PVC construiu uma carreira sólida por ser uma pessoa sólida, inteira, dedicada. Ele é um exemplo, um ideal. Tomara mesmo que ele seja o símbolo para uma meninada, para as empresas de comunicação e para o grande público.

PVC estreou na Fox Sports em janeiro. Foto: Divulgação / Fox Sports
PVC estreou na Fox Sports em janeiro. Foto: Divulgação / Fox Sports

T – A que você credita o “boom” de oportunidades dadas pelos veículos a ex-jogadores de futebol e ex-árbitros, para cumprir a função de jornalistas? Qual a real contribuição deles para o debate esportivo, na sua opinião?

M – Isso não é exclusividade do Brasil. A Copa mostrou muito claramente isso. Vários ídolos do mundo todo estiveram aqui. Acho que o jornalista pode contribuir e o profissional que esteve em campo também pode. Encaro de forma bastante tranquila e natural.

T – A respeito do atual cenário futebolístico: por quê o futebol mineiro dominou as grandes competições de futebol nos últimos anos? E por quê não havia acontecido algo semelhante antes?

M – Atlético e Cruzeiro reconquistaram um espaço importante. Eles nasceram para conquistas e voltaram a conquistar taças importantes. A organização e a estrutura ajudam a entender, mas vejo também que outros grandes clubes, que também nasceram grandes, bobearam demais e deram espaço para quem estava melhor e mais organizado.

T – O Atlético-MG foi, dos times considerados grandes do país e que decaíram em um longo período de suas trajetórias, o que mais justificou, nos últimos anos, a pecha que lhe foi dada. Quais aspectos você considera terem sido os principais responsáveis por essa reviravolta atleticana?

M – Não tenho dúvida de que a mentalidade mudou. O time pode até perder, mas vai perder em campo. Não vai mais perder de véspera. A Cidade do Galo ajuda muito a explicar. Aquilo ali é espetacular. O menino tem a oportunidade de, logo cedo, observar que o time profissional é vencedor e a mentalidade ganha corpo também no menino. Certamente ainda falta muita coisa, mas, na minha visão, a mentalidade mudou e isso é altamente positivo.

T – Como você explica o Cruzeiro, de quase rebaixado em 2011, para bi-campeão brasileiro incontestável em 2013 e 2014? Novamente: quais aspectos considera terem sido os principais responsáveis por isso?

M – A realidade do Cruzeiro não era a de time que ia ficar lutando para não cair. Entendo aquilo como um momento de transição. O clube havia sido comandado por longos anos por uma mesma família e mudou para alguém que, por mais que fosse esforçado e interessado, ainda não tinha traquejo para as coisas do futebol.

T – Você é um dos autores do livro “Nós Acreditamos”, que narra a trajetória do Atlético-MG até a conquista da Libertadores de 2013, uma das mais épicas da história recente do futebol. Como se explica o modo como o Galo venceu aquela competição? A lógica consegue, ou só o sobrenatural?

MA lógica não explica. O futebol é um jogo maluco e diversos fatores entram em campo. O Atlético mereceu fazer o que fez e escrever a história linda que escreveu. Conquistar a Libertadores daquele jeito e com tanto sofrimento só solidificou o conceito de que o time pode mais e por isso as arquibancadas gritavam o “Eu acredito”. Quem consegue escapar de uma eliminação com um pênalti aos 48 do segundo tempo, acredita em tudo e tem prazer em dizer isso em alto e bom tom.

T – Em que ponto você acha que o Atlético-MG demonstrou que não perderia aquela taça de jeito nenhum?

M – A resposta imediata é na defesa do Victor contra o Xolos de Tijuana. Só que depois o Galo sofreu muito em outros jogos e igualmente se superou em outros. Entendo que a defesa do Victor despertou nos jogadores uma força que nem eles sabiam que tinham.

COPA LIBERTADORES - Atletico MG x Tijuana MEX
Victor pegando pênalti contra Tijuana. Foto: Lancepress!

T – Em que medida a conquista da Libertadores, pelo modo como se deu, influenciou na caminhada do Atlético-MG na Copa do Brasil de 2014?

M – Acho que totalmente. Os atores eram basicamente os mesmos e a torcida ajudava a empurrar porque confiava cegamente neles. Depois que o Riascos partiu para aquela bola tudo mudou para o atleticano.

T – Quando você acha que algo parecido com o que o Atlético-MG promoveu em 2013 e 2014 será possível acontecer novamente? O que um time precisa para conseguir tais feitos?

M – Hahaha. Não tenho ideia. Tomara que sempre e, ao mesmo tempo, tomara que nunca mais. Ninguém precisa ou merece sofrer tanto. Acho que o Atlético trabalhou duro internamente e também no campo. O trabalho bem feito deixou o recado e o torcedor ajudou a empurrar. A equação parece simples, mas não é…

Foto: Arquivo Pessoal



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