Conheça a EficiGalo, a torcida do Atlético-MG que luta por inclusão nos estádios

O Atlético-MG é um dos clubes mais vitoriosos do Brasil nos últimos anos, tendo conquistado títulos como a Copa Libertadores, Copa do Brasil e Recopa Sul-Americana. Fora de campo, o time mineiro também é destaque no jogo da inclusão.

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Opinião: Por que não falam em acessibilidade nos estádios de futebol?

O Galo tem uma das primeiras torcidas organizadas voltadas a pessoas portadoras de deficiências físicas. Um dos fundadores da EficiGalo, Ronaldo Lucas Buhr, tem 47 anos, é policial civil aposentado por causa de uma lesão sofrida na coluna após um acidente de carro e hoje atua como advogado.

Ronaldo conversou com a reportagem do Torcedores.com e contou detalhes sobre o surgimento da EficiGalo, as dificuldades enfrentadas nos estádios, os desafios para manter a organizada, e, claro, a paixão pelo Atlético.

TORCEDORES: Qual o tipo de deficiência que você possui? Poderia nos explicar? Já passou ou passa em acompanhamento médico?

Ronaldo: Paraplegia. Foi decorrente de um acidente automobilístico em 1991. O carro em que estava bateu em um animal solto em via pública. Estava de passageiro, tive uma lesão na cervical a nível C7, C6 e T1, chegando a ficar num quadro de tetraplegia completa. Mas que com fé e superação tive uma recuperação fantástica que hoje me possibilita uma certa independência como dirigir, trabalhar etc. Sou paciente do Sarah BH (centro de reabilitação), onde tenho um acompanhamento semestral de rotina, mas toda recuperação ocorreu em casa com esforço da minha esposa, de um amigo técnico em fisioterapia e a minha vontade de viver o mais independente possível.

T: O que o Atlético – juntando a paixão e a EficiGalo – fez que houve progresso em sua vida (seja pessoal ou profissional)?

R: O progresso na vida pessoal foi o fato de sempre frequentar os estádios, e após a lesão ter uma área limitada para ver os jogos, o que discordei. Além de ver poucas pessoas com deficiência no estádio, aquilo fez com que eu motivasse outras pessoas na mesma situação que a minha a ir e voltar a frequentar o estádio. Pelo lado profissional, com o conhecimento que já tinha, ingressei no curso de direito e assim propiciou uma “briga” mais acirrada por espaço nos estádios.

T: São quantos os líderes da Torcida? E quem, além de você, fundou-a?

R: São três pessoas que sempre atuaram seja divulgando, trazendo mais pessoas e buscando um espaço na sociedade: Ronaldo Lucas Buhr (presidente) – Mali Caldeira (vice-presidente) – mulher de fibra, foi com o Galo para o Marrocos (no Mundial de Clubes de 2013) nos representando -, e Tadeu Coelho – Relações públicas, com um papel importante de divulgação.

T: Como surgiu a iniciativa de criar uma T.O especial? E quando?

R: Surgiu em 1999. De certa forma como protesto pelo espaço limitado que havia no estádio (Mineirão). Começando com uma bandeira pintada em um pano de 2 x 2 colocada em um canto que começou a chamar a atenção da imprensa e de outros torcedores. Orgulhamos de ser a primeira torcida organizada do Brasil de pessoas com deficiência.

T: Onde veio a ideia de nomear este projeto como EficiGalo? Por quê?

R: A ideia partiu da minha esposa, querendo dizer que não éramos deficientes, mas sim eficientes e também loucos pelo Galo, e com o principal objetivo de promover inclusão social aliada a paixão pelo clube.

T: Existem torcidas que entraram em contato visando fazer o mesmo?

R: Sim, o pessoal de SP. A Defiel, – que é um braço da Gaviões da Fiel -, do Corinthians. O pessoal do Cruzeiro tentou, mas não foi pra frente, parece que por divergências relacionadas à política, o que no nosso caso fazemos questão de afastar.

T: Vocês possuem dificuldades para ir aos estádios? Se sim, quais são?

R: A maioria das pessoas possuem, pois seja pela falta de transporte adequado, fazendo com que, de certa forma, fique restrito àqueles que possuem carro ou amigos que possam levá-los. Além da falta de acessibilidade, que é preponderante nos estádios, – mesmo os que foram reformados para a Copa do Mundo.

T: O Atlético Mineiro dá algum suporte à EficiGalo?

R: Não foi fácil o reconhecimento, mas hoje estamos inseridos com uma das Torcidas Organizadas que fazem parte do clube. Quanto ao apoio: muito pouco. No caso do Estádio Independência conseguimos pelo menos um local onde há uma visibilidade melhor, além da acessibilidade, mas as vagas são bem restritas. Já no Mineirão é um absurdo, até porque o clube não tem parceria com quem administra o estádio, e ficou péssimo no quesito espaço e acesso para nós.

T: Hoje, são quantos os sócios ligados à torcida? Existe mensalidade para ser paga dos filiados? E para vocês, financeiramente, é difícil manter uma T.O?

R: Não dá para quantificar. Na era do Mineirão (sem reforma), ou seja, até 2010, a média era de 70 torcedores, seja cadeirante e outras deficiências que estavam presentes, mas temos os contatos que ultrapassa 1000 pessoas. Nunca foi cobrado nada, eles sempre adquiriram a camisa a preço de custo. O dinheiro que às vezes sobrava era para confecção de faixas e bandeiras. Sem dinheiro e apoio é muito difícil ainda, mais quando temos a posição de não envolver políticos com suas propostas absurdas.

T: O que os clubes poderiam fazer para melhorar a acessibilidade nos estádios?

R: Na verdade, se o clube e responsável com outro administrador – caso da Minas Arena com o Mineirão – e da BWA – com a Arena Independência – cabe aos clubes fazerem cumprir a lei, seja de acessibilidade bem como o estatuto do torcedor.

T: Vocês se uniriam às outras torcidas rivais em busca de melhorias para as pessoas com deficiências nos estádios?

R: Houve uma tentativa com a torcida do Cruzeiro, mas acabou não havendo uma participação efetiva para que a iniciativa em prol de todos ganhasse mais força.

T: Existe ou já existiu alguma faixa ou bandeira colocada nos estádios para destacarem a presença da Torcida Organizada?

R: Desde que iniciamos, no começo com uma bandeira de 2 x 2, depois uma faixa de 10 metros que foi furtada, – e para demonstrar que nada nos impediria – fizemos uma (faixa) com 25 metros que sempre ficou estendida no Mineirão ou em qualquer estádio que estivéssemos presentes.

T: Qual sua maior dificuldade enfrentada nos estádios que já frequentou?

R: Acessibilidade. Este é o ponto fundamental aliado às adequações necessárias como espaço, banheiros, bebedouros, estacionamento e etc.

T: Já moveu alguma ação na Justiça contra os estádios de futebol por falta de acessibilidade? Se sim, quantos e por quê?

R: Sim, em 2008. No Estádio “Arena do Jacaré ” na cidade de Sete Lagoas, que fica a cerca de 70KM de BH. Fui retirado da cadeira de rodas, e passaram por cima das catracas, não tinha acesso. Esse estádio foi usado pelos clubes de Belo Horizonte quando fecharam o Mineirão e Independência para reforma. Essa ação foi de danos materiais e morais tendo sido a Federação Mineira de Futebol e o Democrata de SL/MG condenados e já recebi a indenização. Esse processo durou 6 anos.

T: Conte-nos quais os problemas que você notou em estádios que visitou.

R: Falta acessibilidade – o que temos é uma maquiagem que usaram na Copa do Mundo – e, na prática, não funciona. Despreparo dos monitores, funcionários das federações e a própria Polícia Militar, na condução de um cadeirante quando chega sozinho, dirigindo seu veículo. Desrespeito por parte dos torcedores no que diz respeito aos espaços demarcados para as pessoas portadoras de deficiência.

Por fim, gostaria de registrar que atualmente a EficiGalo não coloca faixa nos estádios, poucos estão indo aos jogos devido o processo de elitização do futebol. Os ingressos são caros e nem todos conseguem pagar pelos preços praticados. Sou sócio-torcedor do Clube Atlético Mineiro, consigo comprar o ingresso pela internet, ou seja, tenho condições de pagar. Entretanto, quando iniciamos a torcida, o objetivo foi bem claro: a inclusão. E diante desta situação, afastaram novamente a maioria das pessoas com deficiência de seu lazer, paixão e, porque não, do seu momento de sentir-se incluído na sociedade pelo clube que ama.

T: Para finalizar, conte um pouquinho de sua paixão pelo Clube Atlético Mineiro

R: Ser atleticano não se explica. Sentimento inexplicável. Todo mineiro já nasce atleticano. Bastar escutar um estalo, barulho e já vem o grito “GALÔÔÔÔ”. Com 7 anos de idade, já ia para o Mineirão assistir Cerezo, Reinaldo, Éder. O Galo sempre foi o time do povo, a “Massa” assim denominada pelo jornalista Roberto Drummond que imortalizou a frase “Que durante uma tempestade, se houver uma camisa preta e branca pendurada no varal, o atleticano torce contra o vento”. Ao longo dos anos o amor só aumentava, mesmo com a falta de títulos, muita das vezes tirados no apito, como a final do Campeonato Brasileiro de 1980 contra o Flamengo, e 81 na classificação da Libertadores em um dos maiores roubos já vistos no futebol mundial. Isso só fez aumentar a “Massa” e se títulos não vieram, partidas e vitorias memoráveis aconteceram. Mas quis os deuses do futebol que a justiça fosse feita. Em 2012 mais uma vez ficamos sem o brasileiro. O Flu levou na mão grande. Mas em 2013 ou 2000 e Galo – pois 13 é Galo -, conquistamos a América e os títulos passaram a ser rotina, aliados ao fato de ser o maior campeão mineiro, fazendo deste o clube da torcida mais apaixonada do Brasil.

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Projeto de jornalista. Se alimenta de seus sonhos através de caneta e papel. Com passagens pelo Voz Caiçara. Atualmente é colaborador do Torcedores.com e, quando pode, faz mídias sociais no PSG Brasil. Um amante do futebol de base.