Torcida feminina: a nova face das arquibancadas brasileiras

Arquibancada

Cada vez mais comum é encontrar mulheres acompanhando os jogos do seu time do coração, mostrando que amor ao clube não é exclusividade masculina.

A estudante de Engenharia Civil, Beatriz Freitas, conheceu o Santos Futebol Clube por causa da família. O pai acompanha todos os jogos do time da baixada, e a mãe que não é fã de futebol, tem simpatia com o ex – time de Pelé.

Quando criança a universitária ligava a televisão em casa e ficava assistindo aos jogos da equipe. “É de sangue e amor mesmo, não sei explicar”, tenta definir a jovem. O amor que ela tem pelo time é tão grande que em janeiro de 2009, aos 16 anos de idade, ela se tornou um membro da Torcida Jovem, a organizada do Santos.

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Histórias como a de Beatriz estão se tornando cada vez mais comuns. As mulheres estão dominando as arquibancadas, onde antes os homens ficavam em número muito maior. Beatriz e outras torcedoras são assim: metade mulheres, metade amantes de futebol.

Em janeiro de 2012, a Pluri Consultoria desenvolveu um estudo sobre os times de maiores torcidas entre as mulheres. Para que isso pudesse ser realizado, foram entrevistados 10.545 pessoas de 144 cidades, em 23 unidades de federação.

Podemos dizer que os dados da investigação são animadores para os clubes: 98, 2 milhões de brasileiros são mulheres, das quais 68,9%(correspondente a 67,2 milhões de torcedoras) são fãs de algum time de futebol. Vamos falar de números mais completos.

Não é a toa que o Flamengo tem a maior torcida do Brasil, a pesquisa revela que 14,4% da população feminina brasileira são rubro-negras, o que representa 14,1 milhões de admiradoras. O Corinthians aparece em segundo lugar com 11,8 milhões (12%), seguido do São Paulo que representa 7,1%, ou sete milhões.

Fazendo uma comparação do ranking geral dos maiores clubes do país com a feminina, outro fato surpreende mais ainda: vários clubes crescem na posição apenas com as mulheres. O Bahia, que no geral ocupa a 13ª posição, já no feminino pula para 11ª. Sport Recife é outro que sobe de posição no ranking: passa de 14ª no geral para 13ª na preferencia das mulheres.

Mas quando analisamos a proporção de mulheres em relação ao total de torcedores de cada clube, são justamente os dois times mais populares que apresentam os maiores percentuais de mulheres torcedoras: 48,4% da torcida flamenguista são mulheres, enquanto 46,8% dos corintianos são do sexo feminino, número pouco acima de Grêmio (45,9%), Bahia (45,7%) e Vitória (45,6%). Por outro lado, apenas 32,2% da torcida palmeirense é composta de mulheres, seguido pelas botafoguenses com 34,3% e Fortaleza com 34,5%.

Que elas são grande parte da torcida nós já sabemos. Mas no que elas se diferenciam dos homens? A torcedora do São Paulo Fernanda Alves é radical. Quando se fala em amor não tem meio termo: ou ela ama ou odeia. “Um diferencial é que a mulher quando gosta é pra valer, ela assiste, torce, sofre”, exclama a profissional em Marketing.

Ela acredita que as mulheres mostram mais amor ao time do que muitos homens. A santista Beatriz que citamos na abertura desta reportagem destaca mais um diferencial: os produtos relacionados aos clubes. “Mulher tem mais coisinhas, detalhes.” Porém Bia acredita que as coisas variam muito, já que para ela existem homens que não gostam de ir a estádios e os que não gostam de futebol. “Varia muito, cada um ama o time e demostra de alguma forma”.

Mas nem só de alegrias a vida se baseia. O preconceito ainda faz parte das pessoas, e talvez não tenha um término rápido. Não é difícil uma mulher ser chamada de ‘maria chuteira’, que assiste aos jogos só para ver os atletas em campo, que estádio não é coisa para o sexo feminino. Mas elas se mostraram guerreiras contra tudo isso e já tiveram grandes conquistas.

A corintiana Lais Santoro destaca que nos dias de hoje se tornou normal às mulheres irem a estádios. “Isso já é uma grande conquista, porque é um ambiente totalmente voltado para os homens, mas nós soubemos nos adaptar a ele”.

Layane Rocha comenta que a participação e o interesse por parte das mulheres aumentou e que isso tem um lado positivo. “Hoje em dia nós que enfeitamos e embelezamos as arquibancadas”.

Muitos, porém se perguntam por que as pessoas são tão fanáticas a chegarem ao ponto de ter relações agressivas com outras pessoas. O psicólogo da Universidade de Taubaté (UNITAU) Prof. Dr. Régis de Toledo tem uma explicação para esse acontecimento. “O pensamento fanático é maniqueísta, ou seja, o objeto de desejo (clube) não permite algo que se opõe, é um pensamento único”.

Em outras palavras esse amor ao extremo se opõe ao que é diferente. Essa adoração ao clube faz com que ele se torne algo perfeito. As pessoas que levam esse fanatismo ao extremo se distanciam da realidade, ele não aceita o outro e por isso acaba indo para esses grupos onde ela se sente como integrante, até mesmo por compartilhar as mesmas ideias.

Régis destaca o filme nacional ‘O casamento de Romeu e Julieta’(2005, Globo Filmes) para entendermos melhor essa questão. No longa os personagens de Luana Piovani e Marco Ricca são fanáticos por Palmeiras e Corinthians e o personagem esconde essa paixão por que a família dele não aceitaria esse romance.

“Esse romance seria difícil de acontecer porque a condição de fanático não permite, ele não vê o outro como alguém que ele pode se relacionar”, indaga o docente. Mas como é filme, é claro que os rivais se casam no final, o que não o torna possível de acontecer na realidade.

O docente da UNITAU classifica o amor em exagero pela equipe como um transtorno, já que a pessoa deixa de viver a realidade dela e idealiza o mundo que seria perfeito para ela, como frequentar os locais relacionados ao time, ter relações só com pessoas do mesmo pensamento. “Acontece uma distorção da realidade. O sujeito nega tudo para aderir exclusivamente aquele time, ele distorce a realidade negativa, menos a realidade que ele criou”.

Hortência, Maurren Maggi, Ana Maria Braga e Mariana Belém. Essas quatro mulheres são iguais a mim e a você. Tem várias atividades durante o dia, mas quando se fala em futebol cada uma torce de um jeito, sofre, xinga se preciso for e sempre dão um jeito de ver o time de coração em campo.

E por acaso alguém as questiona? Não será gostando de futebol que Hortência deixará de ser a grande jogadora de basquete, que Maurren será uma péssima representante brasileira no atletismo, que Ana Maria não é boa apresentadora e Mariana canta mal. Os times são outra metade, mas elas não deixam de fazer parte da grande massa feminina que está compondo nossas arquibancadas.



Estudante do 6º semestre de Jornalismo na Universidade de Taubaté (UNITAU) e apaixonada pelo Corinthians. Mas também gosto de dar meus palpites sobre outras equipes.