Opinião: F1 ainda não aprendeu a respeitar a vida dos pilotos

Foto: Getty Images

A Fórmula 1 vive desde o último domingo dias de apreensão e muita tristeza com o grave acidente sofrido pelo francês Jules Bianchi no GP do Japão. A cena da Marussia entrando embaixo do trator que recolhia o carro de Adrian Sutil é extremamente forte e mostra que a F1 não é tão segura quanto se imaginou após a morte de Ayrton Senna, há 20 anos.

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A tragédia que deixou Bianchi em estado crítico, diagnosticado com uma lesão grave no cérebro, é uma prova de que a Fórmula 1 não aprendeu nada enquanto organização desde 1994, deixando a vida dos pilotos em segundo plano.

Se por um lado os carros ficaram muito mais seguros, evitando acidentes bestas como o que matou Senna (um braço da suspensão se soltar e atingir o cockpit, lesionando a cabeça do piloto), ou o que tirou a vida de Roland Ratzenberger um dia antes (uma peça do carro se soltar em pleno trecho de alta velocidade, deixando o carro desgovernado), a categoria tem muito o que aprender.

A própria realização da corrida, na iminência da chegada de um tufão, com uma tempestade já muito forte, duas interrupções com a presença do carro de segurança, tudo isso mostra que a Fórmula 1 tomou todas as medidas possíveis para preservar seus contratos e acordos comerciais, mas deixou a vida e a segurança dos pilotos em segundo plano.

Talvez o longo período entre a morte de Senna e este GP do Japão tenha criado uma zona de conforto para a FIA, a FOM, equipes e patrocinadores. Nada na segurança dos carros, diferentemente de 1994, tem que ser apontado como responsável por esta tragédia. Tudo aconteceu porque a organização da prova insistiu na realização dela, em evitar a entrada do Safety Car mais uma vez, no trator que entrou em um lugar indevido, à frente da barreira de pneus.

Não há carro de Fórmula 1 que seja projetado para evitar batidas contra caminhões e tratores, um efeito parecido com o que em acidentes de trânsito e estradas nós chamamos de “guilhotina”, quando o carro literalmente entra embaixo do parachoque de um caminhão e o motorista é acertado em cheio.

A Fórmula 1 não é uma corrida de trânsito, é feita para evitar choques contra a cabeça dos pilotos, mas provenientes de outros tipos de acidente. Quem em sã consciência imaginaria que carros de F1 começariam a entrar debaixo de caminhões e tratores? Pois é, mas aconteceu duas vezes com a Marussia, primeiro María de Villota, em 2012, que morreu um ano depois vítima de sequelas do acidente, e agora com Bianchi.

O problema nesse caso específico de Suzuka é a sequência de erros que a organização causou apenas para manter a corrida, que poderia muito bem ter sido feita mais cedo. Preferiam os contratos, agora uma vida humana está em estado crítico em um hospital.



Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016. Também colabora com o ONDDA, site "irmão" do Torcedores.com.