Opinião: O Cruzeiro ainda depende só de si para ser campeão?

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Há algumas semanas, o Torcedores.com colocou o Atlético-MG como uma real ameaça ao Cruzeiro na disputa pelo título brasileiro. Muitos leitores (como já era de se imaginar, inclusive), não gostaram muito da abordagem colocada no texto e desferiram os impropérios de sempre. Na época, o time celeste estava há 12 pontos do Galo. Agora, está há 9.

Ainda é bastante coisa, é verdade, mas já faz algum tempo que o Cruzeiro tem sofrido um bocado para manter em alta sua reputação de melhor time do Brasil e, de forma legítima, conseguir os resultados que justifiquem essa pompa.

É evidente que o time é o atual campeão do principal campeonato nacional interclubes e lidera a edição de 2014 desde as primeiras rodadas. Porém, também pode-se enxergar, com um pouco mais de realismo e um pouco menos de revanchismo (ou quaisquer outros “ismos”), que, das duas, uma: ou os adversários aprenderam como se deve encarar o Cruzeiro, ou o Cruzeiro está tão autoconfiante da conquista do bi-tetra, que se deu ao luxo de cometer uns deslizes.

O fato é que a derrota para o Flamengo, domingo, somado ao revés para o Corinthians, em casa, na última quarta-feira, acenderam um sinal de alerta na equipe comandada, brilhantemente, por Marcelo Oliveira. Ou, no mínimo, um receio de que algo possa não sair conforme era imaginado por todos.

Desde a derrota para o São Paulo, na segunda rodada do returno, o Cruzeiro passou a ter de ouvir que seu reinado na liderança poderia estar próximo do fim. Algo impensável para um time que, no primeiro turno, foi “campeão simbólico” com algumas rodadas de antecedência (mimetizando o fim do campeonato passado), e com apenas duas derrotas em 19 jogos.

Tendo tudo isso posto e, por meio da análise que faremos nas próximas linhas, colocamos a questão no ar: será mesmo que o Cruzeiro ainda só depende de suas próprias forças para ser campeão?

Últimos sete jogos = 10 pontos conquistados em 21 possíveis

As últimas sete rodadas trouxeram o Cruzeiro de volta à realidade. Ou, pelo menos, o colocou em contato com a realidade dos outros 19 times que disputam com ele o caneco do Brasileirão.

Até então, a única equipe estável da coisa toda, a Raposa experimentou, da 21ª rodada até a 28ª, o amargo gosto de três derrotas, o que, para relembrar o leitor mais desavisado, significa que o time perdeu mais jogos nesse período do que os 19 jogos do primeiro turno inteiro. É um dado que diz muito.

Pode-se argumentar que as convocações dos principais jogadores do time à seleção brasileira influenciaram no desempenho, mas, para um clube que tem o elenco que o Cruzeiro tem, com, realmente, dois jogadores para cada posição, esse argumento não conta muito. Mesmo porquê, os desfalques foram sentidos apenas no último jogo, a derrota para o Flamengo.

Além disso, esse desempenho mais atual esconde algumas coisas: os 10 pontos conquistados pelo Cruzeiro foram por meio de três vitórias e um empate. Os três triunfos foram contra times que estão brigando na parte de baixo da tabela e em apenas um deles o time teve “vida fácil”.

Nos jogos contra Bahia e Coritiba, além de os azuis terem encontrado mais dificuldade em sair de campo com a sensação de dever cumprido, houve alguns erros de arbitragem que, invariavelmente, poderiam ter mudado o destino do placar final.

Ascensão do Atlético-MG

Pode parecer loucura e os cruzeirenses podem ficar (mais uma vez) exaltados ao lerem isso, mas, o Atlético-MG ainda é, sim, uma ameaça na caça à Raposa. E ainda é possível afirmar que, dentre Inter e São Paulo, analisando os compromissos dos dois e a instabilidade que ambos enfrentam em determinadas situações, o Galo ganha ainda mais força.

O ponto fraco do alvinegro é que ele demonstra uma dificuldade imensa quando não conta com Diego Tardelli. Jogar fora de casa também tem sido um tormento ao time, que é capaz de derrotar o São Paulo, no Horto, e perder para o Criciúma, forte postulante ao rebaixamento, fora.

Contudo, me desculpem o pleonasmo duplo, mas chovendo novamente no molhado, o Atlético-MG pode se vangloriar de ter sido uma das únicas equipes do campeonato que derrotou o Cruzeiro nos dois turnos. O outro “felizardo” é o Corinthians, que só não está mais bem colocado na tabela porque tem o incrível “dom” de perder pontos para times capengas.

São Paulo e Inter

Os dois que foram mais vezes cotados para destronar a Raposa, passam, rodada sim, rodada não, por fiascos ridículos e resultados ótimos e inimagináveis. O Inter, por exemplo, conseguiu ser goleado pela Chapecoense e, na rodada seguinte, derrotou o Fluminense, um dos que brigam em cima.

O São Paulo, seguindo toada semelhante, com o “bônus” de contar com um elenco limitado e extremamente dependente de Kaká, consegue vencer o Grêmio, fora de casa, e perder para o Fluminense, em casa. Ou empatar com o Flamengo, também no Morumbi.

No entanto, apesar dos pesares, ambos têm potencial para ir além. Nilmar acabou de chegar e está com fome de bola – além de ser bastante identificado com o time colorado. Já no tricolor paulista, Kaká irá cumprir seus últimos meses de empréstimo e a tendência é que ele queira ir embora deixando um presente, bem como Rogério Ceni, que se aposenta no fim da temporada.

Próximos jogos

Porém, tudo isso que dissemos não serve de nada com a bola rolando. É ali que a coisa é decidida e é nela que devemos nos focar. E, reiterando o pensamento e discursos de outrora, o Cruzeiro ainda é, de longe, o favorito ao título.

Mas não depende mais apenas de si. A não ser que nos prove o contrário daqui pra frente. Nesse meio de semana, aliás, terá uma prova interessante pela Copa do Brasil, contra o ABC-RN, lá em Natal.

Depois, pega o Vitória, em Salvador; o Palmeiras, em BH e o Figueirense, em Florianópolis.

O Galo tem a decisão da vaga para as semifinais da Copa do Brasil contra o Corinthians nesse meio de semana, mas no sábado, pelo Brasileiro, recebe aChapecoense; depois sai para medir forças com o Bahia, na Fonte Nova e depois encara o Sport, novamente em casa.

O São Paulo, nesse meio de semana, será o que mais se desgastará entre os habitantes do G-4: tem jogo decisivo contra o Huachipato, do Chile, fora de casa, pela Copa Sul-Americana. No Brasileirão, já no sábado, recebe o Bahia, em casa; pega a Chapecoense, fora e, na sequência, tem um embate contra o Goiás, novamente no Morumbi.

O Internacional, o único dos quatro que descansará nesse meio de semana, entra em campo apenas no domingo, quando tem o Corinthians pela frente, no Beira-Rio; então visita o Rio, para duelar com o Flamengo, e finaliza esse período de três jogos contra o Bahia, em casa.

Conclusão

Matematicamente é óbvio que o Cruzeiro só depende dele neste momento. Mas esses mesmos números que mostram este cenário, são frios e traiçoeiros.

Não precisamos voltar muito no tempo para lembrar dessa máxima. Ou ninguém se lembra o que aconteceu com o Grêmio, em 2008, o Palmeiras, em 2009 e o Atlético-MG, em 2012?

Faltam dez jogos para o fim e muita água vai rolar. A tendência é que cabeças também.

 



Tudo o que preciso é um papel e uma caneta. Apaixonado por esportes desde 1900 e bolinha: de futebol, basquete, tênis, rugby...