Falcão admite que forçou saída da seleção para mudar “CBF do futsal”

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Falcão é o maior jogador de futsal da história do Brasil, talvez até do mundo. Aos 37 anos, está mais próximo de parar do que seguir em quadra…e é isso que o preocupa.

No bate-papo que teve com o Torcedores.com, Falcão lamentou a falta de substitutos a altura quando ele se aposentar, admitiu que forçou sua saída da seleção brasileira para tirar a antiga diretoria da Confederação Brasileira de Futebol de Salão (CBFS) do poder e relembrou a sua passagem pelo São Paulo no campo e pelo Santos no futsal.

Confira a entrevista com Falcão na íntegra:

Torcedores.com: E aí Falcão…parece que a idade não chega para você. Pensa em aposentadoria? Quer jogar até quando?
Falcão: É difícil pensar em aposentadoria né. Embora jogando ainda não pareça sentir a idade, mas não pode esquecer que tenho 37 anos que com certeza minha carreira 90% dela já foi, mas eu vou levando ano a ano né, tenho mais dois anos e meio de contrato com essa minha equipe, até lá eu vou estar com 39 anos, exatamente no ano do Campeonato Mundial, mas eu vou deixando acontecer. Esperar o momento certo para parar.

Torcedores.com: Você teme o futuro do futsal pós-Falcão no Brasil? Vê alguém em condições de te substituir?
Falcão: O futuro do futsal preocupa, porque ninguém vive do esporte sem ídolo, o fato de me substituir, não é só jogar bem. É ficar no Brasil, fazer história nos seus clubes, na seleção, fazer gols importantes, ter uma interação legal com o público. Jogar bem, um monte de gente joga, agora se tornar um ídolo depende de uma junção de várias coisas né. Isso com certeza me preocupa bastante.

Torcedores.com: Você talvez tenha mais força do que o próprio futsal no Brasil. Por isso que quis sair da seleção brasileira? Para ver se o comando da CBFS mudava?
Falcão: Eu tenho noção na minha força no meu esporte, e com certeza a minha saída da seleção foi justamente para chamar atenção, para ter as mudanças que teve. Com certeza isso funcionou de alguma forma, porque os patrocinadores saíram e voltaram comigo. Tenho consciência da minha força no esporte e procuro usar isso não em benefício próprio, mas em benefício do esporte.

Torcedores.com: A situação do futsal brasileiro está realmente melhor após a sua volta para a seleção? O que precisa melhorar?
Falcão: A situação da seleção melhorou. Mudou o comando, tiramos um presidente que estava lá há 40 anos, um monte de filhas trabalhando ali em setores fortes dentro da confederação, coisas que são erradas né. Claro que tem muita coisa para melhorar, tem muita coisa para mudar, mas a gente estando de perto ali, dá pra gente brigar e tentar lutar por essas melhoras.

Torcedores.com: Acha que o futsal um dia será um esporte olímpico? Se frustra por não ter conseguido isso?
Falcão: O futsal não depende tanto de ser olímpico. A gente vê tanto esporte olímpico que as pessoas só se preocupam com esses esportes quando está a dois meses da Olimpíada, e depois somem. Futsal tem vida própria. Claro que a gente queria que o futsal fosse olímpico, mas o fato de não ser, é um esporte que é da Fifa, a gente tem campeonato de 4 em 4 anos, a gente tem ligas pelo mundo inteiro, ligas fortíssimas, investimentos fortes, com várias equipes, então ser olímpico seria um atrativo a mais, mas o futsal é forte mesmo sem ser olímpico.

Torcedores.com: A Espanha ficou por um tempo engasgada na sua garganta, já que ganhou duas finais de uma das maiores gerações da história do futsal brasileiro. Esses dois últimos títulos fizeram ‘a conta ser paga’?
Falcão: Com certeza, porque eu entrei na seleção no Mundial de 2000, uma seleção que vinha de vários campeonatos mundiais, claro que o nível foi aumentando a cada ano, foi crescendo a cada ano, e perdemos em 2000 e 2004. Como você falou: uma geração fantástica que não tinha títulos mundiais. Acho que em 2008 e 2012, até pela força do futsal atualmente, porque antes o Brasil via quando ia jogar a final, contra quem e quanto ia ser o jogo né, a seleção brasileira era muito superior, e isso foi se igualando e cada vez mais difícil. Nós vencemos em 2008 e 2012, em condições que outras quatro, cinco equipes poderiam ter vencido também. Com certeza a conta se pagou, em momentos de mais visibilidade, mais competição, então com certeza da forma que foi o jogo nos últimos mundiais foi muito especial.

Torcedores.com: Qual foi o melhor momento da sua carreira no futsal até agora? E o pior?
Falcão: O melhor momento com certeza foram os anos que vivi em Jaraguá do Sul, onde eu cresci como atleta e como profissional, e também aconteceram as coisas da minha vida. Eu fui campeão da liga quatro vezes naquela cidade, naquela equipe, ganhei melhor jogador do mundo em 2004 pela seleção, mas o momento mais específico que pra mim vai ficar marcado, não vou dizer que é melhor ou pior, mas é mais marcante, foi no Mundial de 2012 com certeza né, com a paralisia facial, com todos aqueles problemas, fazer aqueles gols importantes, sendo que um mês antes teve aquela vitória da Liga, que a gente estava perdendo de 4 a 0 e fomos campeões buscando 4 a 4, então esse é o mais marcante. Os mais importantes foram os anos que vivi em Jaraguá do Sul.

Torcedores.com: Você nunca negou que era santista. Como define o período em que vestiu a camisa do Santos? Ficou alguma mágoa da diretoria?
Falcão: Momento no Santos foi um momento especial né. Foi a realização de um sonho, um projeto fantástico, projeto de vitorioso, vestir a camisa do time que eu torço, a torcida ter abraçado a nossa equipe como abraçou, os jogadores de futebol, todos os jogos que eles podiam ir, eles estavam lá, então realmente foi um momento fantástico. Acho que não só eu como toda a torcida ficou frustrada com a diretoria naquele momento, um projeto que se pagava, um projeto que era um sucesso, que foi a maior audiência do ano de TV fechada, eu fui o atleta que mais apareci depois do Neymar, isso com números comprovados, então não tinha o porquê de acabar aquela equipe né. Acho que foi um tiro no pé da diretoria. Eles tem consciência disso, mas passou. Infelizmente passou, mas está marcado na história.

Torcedores.com: Acha que se não fosse o Leão, você poderia estar até hoje no futebol? Acha que conseguiria uma vaga na seleção brasileira?
Falcão: O São Paulo foi uma situação na minha vida que eu tinha que ter passado. Foi muito legal, foi uma oportunidade. Não me arrependo de ter ido, não me arrependo de ter voltado. Sei sim que poderia ter ajudado muito o São Paulo. Sei sim que poderia de repente até chegar numa seleção brasileira, mas não me arrependo de ter voltado. Tô aqui com 37 anos, no auge da minha carreira no meu esporte, não sei como estaria com 37 anos no futebol, então teria feito o mesmo trajeto da mesma forma. Teria ido, teria voltado igual, não tenho arrependimento nenhum, sou bem resolvido quanto a isso desde o momento que resolvi voltar.

Torcedores.com: Quem foi o seu maior amigo no futebol? E o seu maior inimigo?
Falcão: Nunca tive inimigos não, acho que teve algumas rivalidades, algumas coisas assim, mas nunca tive inimigos não. Amigos fiz muitos. Não dá para citar senão acabo esquecendo algum, muitas pessoas que olho pra trás e sei que fui importante para eles como sei que foram importantes pra mim também, então quando acabar a minha carreira, eu vou poder olhar pra trás e saber que sempre fiz as coisas corretas. Tem gente que entendeu assim, tem gente que preferiu afastar, tem gente que vive perto, convive e tem o direito de não gostar de você, tem gente que vai te invejar, tem uma série de situações né. O ser humano é assim, mas sou muito bem resolvido com isso também. Não tenho problema nenhum.



Jornalista de esportes desde 2005, com passagem pelo UOL e Terra. Editor de comunidades do Torcedores.com e blogueiro do renanprates.com