Pequenos que fizeram história no futebol paulista: Inter de Limeira-86

Quando o Campeonato Paulista de 1986 começou, na tarde de um 23 de fevereiro, com a vitória do Palmeiras sobre a Inter de Limeira por 3 a 1, no Parque Antárctica, ninguém imaginava o que aquela competição reservaria para o futebol paulista e para os dois times. Sete meses depois, as duas equipes decidiriam o título, e o time do interior surpreenderia a todos.

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O Paulistão começou com uma séria dúvida para a Inter de Limeira. A saída do técnico Carlos Castilho no Santos causou rumores de que Pepe treinaria seu ex-clube. O companheiro de jornadas de Pelé era o responsável por comandar o time de Limeira na competição e poderia deixar o projeto na mão.

Apesar da derrota na estreia e de um empate em casa com a Ponte Preta no segundo jogo, a Inter de Limeira conseguiu finalmente vencer na terceira rodada da competição, fora de casa, contra a Ferroviária. A partir daí, fez uma campanha considerável para o porte do clube, segurando empates com São Paulo e Corinthians. Ao final do primeiro turno, o time de Pepe era o sexto colocado, deixando o Tricolor paulista para trás na tabela.

O segundo turno começou ainda melhor. Logo na estreia, no dia 25 de maio, a Inter de Limeira enfiou um 3 a 0 no Santos. Na quarta rodada, no primeiro reencontro com o Palmeiras, agora jogando em casa, o time do interior venceu por 1 a 0.

A campanha nessa segunda etapa do Paulistão ainda rendeu uma vitória sobre a Portuguesa fora de casa, por 2 a 1. Como pontos negativos, duas derrotas nas últimas rodadas, quando o time já estava com a classificação para as semifinais garantida. Foi um revés para o Corinthians, por 1 a 0, e uma goleada por 5 a 1 para o São Paulo. Insuficientes para tirar da equipe de Limeira um já considerado feito histórico de campeã do segundo turno.

Se classificaram para as semifinais os campeões de cada turno, Santos e Inter de Limeira, mais os dois times de melhor campanha somando os pontos das duas etapas, Palmeiras e Corinthians.

Na semifinal, a Inter de Limeira encarou o Santos, no duelo dos campeões de turno. A outra vaga na decisão ficaria entre Palmeiras e Corinthians. A falta de ritmo do Peixe, que passou o segundo turno inteiro fazendo uma péssima campanha, que o deixou em últimmo lugar, acabou pesando.

O time do interior conseguiu duas vitórias, por 2 a 0 e 2 a 1, e garantiu a histórica vaga na grande final do Paulistão. No outro lado, Corinthians e Palmeiras venceram uma partida cada, por 1 a 0. A decisão foi para a prorrogação, onde prevaleceu o time alviverde comandado pelo técnico Carbone.

A primeira polêmica aconteceu logo que a final foi definida. A Inter de Limeira queria que o segundo jogo da decisão, cujo mando pertencia a ela, fosse disputado no Estádio Major José Levy Sobrinho. A Federação Paulista de Futebol alegou que o local não atendia à capacidade mínima para uma decisão de campeonato e marcou as duas partidas no Morumbi.

No dia do primeiro jogo da decisão, o “Jornal de Limeira” estampou em sua capa uma frase bastante sugestiva sobre o clima que São Paulo vivia naquela final. “O glorioso Corinthians rende sua homenagem ao Palmeiras e deseja-lhe que seja um feliz vice-campeão”.

O Palmeiras vivia uma oportunidade de quebrar o tabu de 10 anos sem conquistas. A última havia sido Paulistão de 1976. Nesse período, muitas desilusões, campanhas muito fracas. Mas, mesmo com a força da camisa, a forte campanha da Inter de Limeira no campeonato inteiro não permitia que o Verdão fosse considerado como franco favorito ao título.

O primeiro jogo foi um empate em 0 a 0 marcado por três lesões que assustaram as torcidas. No Palmeiras, o zagueiro Vágner torceu o tornozelo. Na Inter, o centroavante Kita teve que levar quatro pontos um pouco abaixo do joelho direito após um choque. O meio-campista Gilberto Costa, também do time de Limeira, levou seis pontos na cabeça também por uma trombada.

A igualdade beneficiou a Inter. Com a melhor campanha, o time levaria vantagem com um novo empate no jogo de volta, se ele persistisse após uma prorrogação de 30 minutos. O resultado claramente não agradou aos palmeirenses. “O Palmeiras não jogou metade do que pode. Em compensação, a Inter mostrou tudo o que sabe”, desabafou o então presidente do Alviverde, Nelson Duque, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. O público presente no Morumbi foi de 104.136 pagantes.

Três dias depois, os dois times voltaram a se encontrar no mesmo estádio para a grande decisão. O Palmeiras precisava vencer por qualquer placar para quebrar o tabu de títulos. A Inter de Limeira jogava pelo empate para se tornar o primeiro time do interior a ser campeão paulista. Até então, apenas o Santos conquistou a taça sendo um time de fora da capital.

Apesar da vantagem, a Inter de Limeira não teve medo do Palmeiras. Depois de um primeiro tempo marcado pela pressão palmeirense, o time do interior aproveitou o desespero alviverde para impor seu jogo no segundo tempo. Melhor armada pelo técnico Pepe, a Inter chegou ao gol logo ao cinco minutos da etapa final. Após levantamento de Pecos, João Batista ganhou pelo alto e tocou de cabeça para Kita, grande nome do time na competição, balançar as redes.

Quatro minutos depois, o lateral palmeirense Denys foi recuar a bola para o goleiro Martorelli, mas o toque ficou curto. O atacante Tato aproveitou, roubou a bola e tocou para o gol, ampliando a vantagem da Inter de Limeira, para total desespero da torcida palmeirense no Morumbi.

O desespero dava condições para o contra-ataque da Internacional, mas a defesa palmeirense conseguiu impedir novas falhas que permitissem um vexame ainda mais histórico. Aos 29 minutos, Éder cobrou escanteio para o Palmeiras e Amarildo tocou de cabeça, diminuindo o placar e dando novo fôlego ao Verdão na briga pelo título.

O time de Pepe passou a jogar mais recuado, para evitar um gol que levasse a decisão para a prorrogação. No último minuto, Mirandinha chutou, Silas rebateu e Mendonça tocou de cabeça, mandando a bola para fora. Era o fim do sonho palmeirense, a última chance desperdiçada pelo Verdão no jogo.

Com o apito final de Dulcidio Wanderley Boschilia, a Inter de Limeira se sagrava a primeira equipe do interior a ser campeã paulista. O segundo título de Pepe como técnico, já que ele comandou o Santos no famoso caso da disputa de pênaltis contra a Portuguesa que acabou interrompida por um erro de contagem do árbitro Armando Marques, causando a divisão da conquista.

Kita, o grande nome da Inter de Limeira naquele título, foi negociado com o Flamengo ainda em 1986. Jogou ainda por Portuguesa, Grêmio e Atlético-PR. Havia jogado pelo Internacional de Porto Alegre antes dessa conquista. O atacante já tinha no currículo a medalha de prata com a seleção brasileira nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, dois anos antes da conquista do Paulistão.

inter de limeira campeã paulista
Troféu do Paulistão de 1986 é o principal destaque da sala de conquistas da Inter de Limeira – Foto: Reprodução/Facebook


Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016. Também colabora com o ONDDA, site "irmão" do Torcedores.com.