Pequenos que fizeram história no futebol nacional: Paulista-2005

O país ainda vivia a memória recente do título incrível do Santo André na Copa do Brasil de 2004 quando viu, no ano seguinte, o Paulista de Jundiaí repetir o feito do Ramalhão, calar outra torcida carioca na final, e levantar o título da segunda competição nacional mais importante entre clubes de futebol.

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Enquanto o time do ABC disputava a Libertadores, outros times grandes entraram em 2005 com a missão de tentar uma vaga na competição continental do ano seguinte já na Copa do Brasil. O exemplo do Flamengo, derrotado em pleno Maracanã pelo Santo André, estava muito evidente. Parecia quase impossível que aquilo fosse se repetir.

Estavam na Copa do Brasil de 2005 times como Flamengo, Fluminense, Coritiba, Grêmio, Bahia, Atlético-MG, Corinthians, Botafogo, Internacional, Cruzeiro e Vasco da Gama. A missão do modesto Paulista era apenas sonhar com voos mais altos após o vice-campeonato estadual do ano anterior, em um final surpreendente feita contra o São Caetano, quando Zetti era o treinador. Agora, o time era comandado por Vágner Mancini, figura marcante também como jogador do clbe.

Se os grandes pareceram não aproveitar a lição aprendida pelo time rubro-negro carioca, a equipe de Jundiaí mostrou que o exemplo do Ramalhão não passou despercebido. O primeiro desafio era contra um time com experiência em ser zebra. A estreia na Copa do Brasil aconteceu contra o Juventude, em Jundiaí. O rival foi campeão da competição em 1999 contra o Botafogo na final, disputada no Maracanã.

O Paulista fez sua parte e venceu por 1 a 0. O resultado parecia até bom para o time gaúcho, que levou o resultado para Caxias do Sul, onde precisaria fazer dois gols de diferença, mas teria o apoio da torcida.

O que se viu no Sul, entretanto, foi uma atuação heroica do Paulista, que arrancou um empate em 1 a 1 e eliminou o campeão de 1999 da competição. Festa para os jogadores do time de Jundiaí.

A segunda fase também não deu moleza para a equipe, que na época era um time de Série B do Brasileirão em busca de um lugar ao sol no futebol nacional. Os únicos títulos, até então, haviam sido conquistados no mesmo ano, 2001. Foram as taças da Série A2 do Paulistão e da Série C do Brasileiro. O rival da vez seria o Botafogo.

Se o Paulista enfrentou um time que tinha experiência em ser zebra na fase anterior, agora era a vez de pegar o time que foi vítima daquela zebra. Mas o destino provou que a lição não foi aprendida. Mesmo arrancando um empate em 1 a 1 do time paulista em Jundiaí, contando com a vantagem do gol marcado fora de casa, os cariocas conseguiriam se complicar.

O jogo de volta foi disputado no Maracanã. O Botafogo vivia tempos particularmente terríveis. Três anos antes, foi rebaixado à Série B do Brasileirão. Em 2003, conseguiu subir, mas tomou uma goleada do Palmeiras na despedida da segundona. No ano seguinte, lutou até o fim para não cair de novo. A crise era muito forte.

A situação do Botafogo ficou ainda pior com o jogo contra o Paulista no Rio. O time carioca ficou atrás do marcador duas vezes, lutou e conseguiu empatar em ambas. Mas o resultado de 2 a 2, com os gols marcados pelo time de Jundiaí fora de casa, acabou eliminando a Estrela Solitária da Copa do Brasil. O Paulista dava mais um passo contra todas as previsões.

Nas oitavas de final, o Paulista tinha a missão de enfrentar mais um gigante do futebol brasileiro, o Internacional. O time gaúcho já tinha a base que no fim daquele ano disputaria até a última rodada o título do Brasileirão com o Corinthians. Pois o Paulista complicou a partida de ida para o Colorado, que só conseguiu chegar ao gol com uma falta muito bem cobrada por Jorge Wagner quase no fim do jogo em Porto Alegre.

O jogo de volta teve um Internacional que buscou administrar a vantagem e jogar no erro do adversário. O time de Muricy Ramalho teve até uma chance incrível de matar a partida com um chute para fora de Rafael Sóbis. O Paulista, por sua vez, aproveitou uma chance com um chute de fora da área disparado por Juliano. Coincidentemente, o gol também saía aos 39 do segundo tempo, como o de Jorge Wagner no Beira-Rio.

Com a partida terminada com o 1 a 0 a favor do Paulista, a disputa da vaga nas quartas de final teve que ser feita nos pênaltis. Foi aí que um erro de arbitragem manchou um pouco a bonita campanha do time de Jundiaí. Na última cobrança, Perdigão tinha a obrigação de converter para manter o Internacional vivo. O jogador chutou alto no canto e a bola bateu na trave, voltou no chão e pulou para fora.

As imagens do SporTV na época mostraram claramente a bola batendo completamente dentro do gol. O árbitro Djalma Beltrami não concordou e encerrou a disputa, classificando o Paulista.

O adversário nas quartas de final também tinha vindo de uma disputa de pênaltis. O Figueirense bateu o Corinthians na famosa série que marcou a cobrança desperdiçada de Roger Flores, tida por muitos torcedores como suspeita por causa de sua relação com o então treinador, Daniel Passarella.

O confronto foi uma quase repetição do duelo contra o Internacional. Derrota fora de casa para o Figueira por 1 a 0, resultado devolvido em Jundiaí com um belo gol de Lucas. Os dois times voltavam a decidir sua sorte nas cobranças de pênaltis. Dessa vez, a equipe catarinense não teve sorte, e a série foi vencida pelo Paulista por 3 a 2, com Marquinhos Paraná jogando a última cobrança para fora, para festa da torcida e do goleiro Rafael no Estádio Jaime Cintra.

O Paulista fazia história. Logo na primeira Copa do Brasil de sua história, a equipe modesta de Jundiaí já era semifinalista. O caminho havia sido extremamente difícil até então, mas ainda podia piorar. O rival na semi era o Cruzeiro, que havia aplicado goleadas no Sergipe, Ipatinga, Santa Cruz e no Baraúnas. O Galo do Japi, como é conhecido o time paulista, tinha mais uma vez que provar sua força.

Dessa vez, a equipe não teve medo de partir para cima, e logo aos cinco minutos abriu o placar com Cristian. O Cruzeiro não bobeou e, três minutos depois, empatou a partida com o atacante Fred. O resultado era ótimo para os mineiros, por causa desse gol como visitante. Mas o segundo tempo chegou e levou embora o otimismo da Raposa.

Aos 10 do segundo tempo, Márcio Mossoró encaixou um chute lindo de fora da área – o que já virava uma especialidade do clube na competição – e colocou o Paulista na frente. Jefferson, aos 40 da etapa final, quando o Cruzeiro buscava alucinadamente o empate, tratou de aumentar a vantagem. Um 3 a 1 inesquecível.

Na partida de volta, blitz total do Cruzeiro. O time mineiro veio com tudo para cima do Paulista e queria fazer a lição de casa logo. A missão era vencer por 2 a 0. Logo aos sete minutos, o jovem Kelly abriu o placar. Aos 16, Fred arrancou, ganhou na corrida contra os zagueiros e bateu firme para ampliar. E teve mais. Fred fez mais um aos 36, colocando um 3 a 0 a favor do time mineiro.

O “apagão” do Paulista parecia deixar claro que a missão do time de Jundiaí na Copa do Brasil estava encerrada. Seria mais uma goleada do Cruzeiro na competição, como aconteceu nas outras fases. Mas time iluminado rumo a uma conquistada improvável é difícil de compreender. Veio o segundo tempo, e Mancini colocou um atacante, Léo, no lugar de um volante, Amaral.

Com um minuto da segunda etapa, Cristian acertou um chute forte e rasteiro, pegando o goleiro Fábio adiantado e fazendo a bola passar por baixo da barreira. O lance chega a lembrar o gol do título do próprio Cruzeiro na Copa do Brasil de 2000, marcado por Giovanni, contra o São Paulo.

Três minutos depois, nova falta, mais uma cobrança de Cristian, mais um gol do Paulista. Em quatro minutos de segundo tempo, a vantagem do Cruzeiro havia ruído. O juiz Wagner Tardelli expulsou um jogador de cada time após um princípio de confusão. O time mineiro não conseguiu mais furar a defesa paulista. O goleiro Rafael ainda fez um milagre no final. Festa do Paulista, classificado para a final da Copa do Brasil de 2005.

Na outra chave, o Fluminense espantou a zebra Ceará, mas já se via de cara com o Paulista. A zebra de Jundiaí já era bastante respeitada. Eliminou, afinal, Juventude, Botafogo, Internacional, Figueirense e Cruzeiro. Quem poderia pará-los? Exatamente, ninguém.

O jogo de ida no Jaime Cintra foi uma lição de como fazer o dever de casa. Com gols de Márcio Mossoró e Léo, o Paulista venceu por 2 a 0, forçando o time carioca a jogar para reverter essa vantagem na volta. O clima já era diferente da final do ano anterior, quando o Flamengo havia empatado fora o primeiro jogo com o Santo André e preparou uma verdadeira festa no Maracanã até ser derrotado pelo time do ABC por 2 a 0.

O Fluminense mandou o jogo no estádio de São Januário, do Vasco. A torcida do Tricolor carioca fez sua parte e lotou as arquibancadas para a partida. Mas o que viram foi uma sequência de chances perdidas e o título jogado fora. O Paulista colocou o regulamento debaixo do braço e administrou como time grande a vantagem.

Quando o árbitro Leonardo Gaciba encerrou a partida em 0 a 0, o Galo do Japi se tornava um campeão nacional. Um feito histórico, marcante. O time tinha em seu elenco nomes como o goleiro Victor e o zagueiro Réver, que seriam oito anos mais tarde campeões da Libertadores com o Atlético-MG. Um grupo que fez história no futebol brasileiro.

O Paulista hoje não disputa mais nenhuma divisão do futebol nacional e vive dificuldades no Estadual. Fica a torcida para que um dia o time de Jundiaí consiga retornar aos bons tempos e possa brigar por novos feitos como aquele.



Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016. Também colabora com o ONDDA, site "irmão" do Torcedores.com.