Preço dos ingressos: torcedor não é consumidor

Começo partindo do princípio que o futebol é um esporte popular. Eu acho, sempre acharei e é essa minha concepção do ludopédio. Logo, preços e ingressos populares deveriam ser praticados. Mesmo que seja em apenas um setor, copiando a Alemanha. Peguei o finalzinho da geral e cravo sem nenhum pudor que aquele lugar fez do futebol brasileiro algo diferente, com um misticismo que não se encontra hoje. Garrincha, Pelé e Zico, se não foram, seriam geraldinos.

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Digo também que torci pela Chapa Azul e ainda apoio a atual gestão rubro-negra. Acho que é uma diretoria séria e que administrativamente vai tentando fazer milagre. A situação parece melhorar, ainda que a cada hora venha uma porrada financeira, muito também pelos erros cometidos no futebol.

Por fim, saliento que não sei nada de economia.

Isto posto, vamos aos fatos: novamente a gestão Eduardo Bandeira é colocada à prova. E novamente a grande questão é o aumento do preço dos ingressos, da qual sai mais uma vez como vilã. E é vilã exatamente por conta da visão extremamente empresarial que tem do futebol.

Podem tentar te dizer o contrário mas o futebol NÃO É um negócio. É TAMBÉM um negócio. Talvez seja um negócio para o empresário, para o cartola e até para os jogadores.

Mas para nós, torcedores, não. Logo, não somos consumidores. Somos TAMBÉM consumidores, e aqui no Brasil, só bem de vez em quando.

Se não há concorrência, consumir o futebol é apenas um complemento a nossa função principal: torcer para o time que amamos.

Se o iPhone 6 é uma m…, a gente corre para o Galaxy.

Se o McDonald põe menos cheddar no McMelt, a gente vai para o Burger King.

Consumidor, graças ao mercado, tem essa opção. Torcedor, não.

Porque em 2005 a quase queda até poderia permitir, mas não deixamos o Flamengo para torcer para o Corinthians, campeão daquele ano com craques como Tevez.

Logo, praticar um preço mais alto por conta de fatores financeiros (arrecadação) e mercadológicos (demanda) não é condizente com o futebol brasileiro, ainda que algum engomadinho venha dizer que funciona em outros lugares.

Exemplo recente: não havia clube com mais pecha de elitista que o São Paulo. Estádio próprio, com toques de arena moderna, shopping, restaurante. Dentro de campo, ídolos, times fortes, grandes conquistas.

Mas as conquistas foram à quase zero nos últimos anos e diante da necessidade de trazer o torcedor para perto, o Tricolor do Morumbi abaixou o preço dos ingressos.

A atração do torcedor é TAMBÉM a qualidade do time, ou do estádio, ou do jogo. 

Mas o maior atrativo é torcer para o clube que ama, independente de Marcos Denner ou Goeber. Se o time tá bem, a torcida vai. Se o time tá mal, a torcida vai mais ainda.

Cobrar ingresso caro do torcedor é injusto, principalmente na situação atual do Flamengo. Mais ainda depois da torcida ser o fio condutor para a saída do time da lanterna do Brasileirão.

Soa, sim, como uma punhalada.

O torcedor, mais do que qualquer outro engravatado, sabe que a situação financeira do clube é grave. E sabe que é ele quem pode ajudar.

Mas aumentar o preço para o apaixonado acompanhar a sua paixão, no momento da necessidade, se aproveitando da fragilidade da parte mais fraca, é crueldade.

A atitude é típica do mercado, que trata seus clientes como números, baseando-se no pilar “oferta-procura”. Mas JAMAIS deveria ser adotada com torcedor.

As explicações são plausíveis, já que sem estádio próprio e jogando em um gerido pela iniciativa privada (onde se aplicam as leis do mercado), fica difícil colocar preços realmente baixos. Ainda sim, há horas que a gente deve engolir o sapo e assimilar possíveis prejuízos/falta de lucro.

E a diretoria do Flamengo, mais uma vez, perdeu boa oportunidade de se manter ao lado do seu maior bem em troca de alguns mils que não resolverão a situação. Dinheiro que ajuda pouco em detrimento daqueles que ajudam muito na arquibancada.

PS: O Extra publicou reportagem que a arrecadação nos primeiros jogos, com preços mais altos, foi menor do que as dos últimos jogos, com preços mais em conta.

O cálculo é simples e também adotado pelo ‘mercado’: preço acessível, mais gente, mais dinheiro. Preço caro, menos gente, menos dinheiro.

Ou seja, até pensando pelo lado que menos importa, pareceu ser um tiro no pé.

Foto: Getty Images



Carioca, bacharel em Direito e bacharelando em Jornalismo pela FACHA. Não escolheu o jornalismo mas foi escolhido por ele. Sonho profissional: casar com a editoria de esporte e ser amante das páginas de política. Resumidamente, um cronista do cotidiano, comentarista do dia-a-dia e palpiteiro da rotina.