Opinião: Não, não pode mais gritar bicha no estádio. Ainda bem

Após a reclamação de uma ONG LGBT e temendo punição na justiça desportiva, o Corinthians lançou um manifesto contra a homofobia. O objetivo maior é acabar com o ridículo grito de “bicha” nos tiros de meta, modinha copiada da torcida mexicana. Em um meio tão preconceituoso, em que a homossexualidade ainda é um grande tabu, a atitude corintiana é excelente. Há pouco tempo, a diretoria não daria a menor importância aos gritos e cânticos que vêm das arquibancadas.

Algumas horas depois da publicação do manifesto, um tuiteiro polêmico e famoso perguntou nas redes sociais com tom de ironia: “Não pode gritar “bicha” no estadio mais???? Parei.” Não foi o único. Vários torcedores estão indignados e acham que o futebol está se tornando chato, careta e que atitudes assim vão afastar o torcedor comum dos campos.

Bobagem! É necessário acabar com o preconceito em toda a sociedade. Os estádios de futebol estão incluídos. Em um país onde um jovem foi brutalmente assassinado pelo simples fato de ser gay, qualquer atitude que acabe com a homofobia é válida. Porque chamar o goleiro de bicha é, sim, homofobia. Chamar o jogador adversário de macaco é, sim, racismo.

O torcedor não tem um indulto que o permite ofender os outros só porque está em um estádio. Quando eu era pequeno e comecei a ir a jogos de futebol, meu pai permitia que eu xingasse e usasse palavrões contanto que estivesse na arquibancada. Dizer na mesa da janta a mesma coisa que eu vociferava à beira do campo era motivo de castigo. Por muito tempo, encarei a arquibancada como um lugar onde eu podia extravasar toda raiva que eu acumulava no dia-a-dia. Abrir a janela e ofender o vizinho gratuitamente é totalmente reprovável. Xingar o juiz de bicha, mesmo que estivesse apitando bem, é terapêutico e aceitável.

Não deveria ser. Se depender do Corinthians, não vai ser. É homofobia. Talvez o primeiro passo para que as torcidas aceitem gays, travestis, transsexuais em suas fileiras (duvido que uma travesti seja bem recebida por qualquer organizada do Brasil ou que dois torcedores possam dar um beijo na boca sem serem reprimidos). Ou para que o primeiro jogador homossexual do Brasil se assuma.

Em algum momento da nossa história, alguém certamente se perguntou “não pode escravizar negros mais???? Parei.” Ou quem sabe “não posso mais bater com uma vara no meu filho para educá-lo???? Parei.” Tomara que em um futuro próximo, chamar o goleiro adversário de bicha ou de macaco seja tão ofensivo como os exemplos que acabei de dar.

O futebol está mais chato e coxinha. A desorganização das federações, os preços altos dos ingressos, a ditadura das organizadas e os times ruins são os responsáveis. O fim do preconceito não tem nada com isso.



Jornalista, formado na Metodista, com passagens pelo UOL, R7, Meia Hora e Diário do Grande ABC.