Carros do Passado: Ferrari 643, o modelo que Prost chamou de “caminhão”

A temporada de 1991 representava para a Ferrari mais uma chance de quebrar o incômodo jejum de títulos que já durava desde a conquista do sul-africano Jody Scheckter em 1979. Representava também mais uma oportunidade para o francês Alain Prost conquistar o tetra, depois de ter sido tirado do decisivo GP do Japão de 1990 por Ayrton Senna na primeira curva.

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A cena que definiu o título do ano anterior era um troco aplicado por Senna por causa do toque entre os dois pilotos, quando eram companheiros de McLaren, que acabou dando o tri a Prost em 1989. O resultado saiu após a desclassificação do brasileiro, que tinha conseguido retornar à pista e vencer a corrida.

Agora, Prost vinha com tudo para o tetra. A Ferrari começou o ano com o modelo 642, desenvolvido a partir do carro da temporada anterior. Até assustou a McLaren ao fazer a pole provisória no primeiro treino oficial do ano, nos EUA. Mas, no dia seguinte, Senna fez o melhor tempo e começou o domínio da equipe inglesa na primeira parte do campeonato.

A Ferrari assistiu às quatro vitórias seguidas de Ayrton Senna e não conseguiu completar a prova no Canadá, quando o brasileiro também abandonou. Prost e Alesi sofriam com o carro da escuderia italiana. Enquanto isso, a equipe de Maranello desenvolvia um novo modelo para ajudar a dupla francesa na reta final, uma tentativa de fazer com que os pilotos ainda tivessem chance de brigar pelo título.

A retomada que a Williams deu perto da metade do campeonato é uma prova de que a Ferrari poderia ter conseguido brigar pelo título. O carro de Frank Williams já dava sinais do domínio que exerceria no ano seguinte. Enquanto isso, a equipe italiana caminhava para um de seus maiores vexames.

O Ferrari 643 ficou pronto para a estreia no GP da França, casa dos dois pilotos da escuderia. Prost havia abandonado as duas provas anteriores, no Canadá e no México. Alesi também.

O carro era a esperança da torcida fanática da Ferrari. Restavam 10 corridas, apenas seis haviam sido disputadas. Existia tempo hábil para uma reação. A diferença entre Prost e Senna era de 33 pontos, completamente reversível. O novo modelo tinha motor V12, chegava a quase 3.500 cilindradas e tinha um câmbio semi-automático de sete velocidades. Foi desenvolvido por Steve Nichols e Jean-Claude Migeot. Pesava 505 kg e usava pneus Goodyear.

Reportagem do jornalista Flávio Gomes na Folha de S.Paulo do fim de semana da estreia do Ferrari 643 definia o clima dentro da equipe. “Nova Ferrari traz de volta a paz aos italianos” era o título da matéria, que mostra o sossego da equipe com os bons resultados com o carro na pista no primeiro dia de treinos. Pelo formato de seu bico, o modelo ganhou o apelido de “tamanduá vermelho”.

De fato, Prost conseguiu superar Senna na primeira corrida. Mas chegou em segundo lugar, com o brasileiro em terceiro. Foram quase 30 segundos de diferença entre os dois. Mas a vitória ficou mesmo com o inglês Nigel Mansell, configurando ali o embrião de uma era de ouro da Williams, que já havia vencido com Riccardo Patrese no México.

Mansell voltaria a vencer na Inglaterra, onde Senna teria um problema com o sistema de computador de bordo com sua McLaren. A falha resultou em uma pane seca que tirou o brasileiro da corrida. Melhor para Prost, que aproveitou para ir ao pódio com a terceira posição.

A partir daí, o Ferrari 643 se transformou em um pesadelo para o francês. Prost não completou três corridas seguidas, na Alemanha, Hungria e Bélgica. Enquanto isso, Senna se recuperava e disparava na ponta. Apenas Mansell tinha chance de alcançá-lo. A dupla francesa e sua equipe italiana chegavam ao fracasso total e absoluto.

Chegava o GP da Itália, em Monza, e com ele uma onda de pessimismo completa na torcida ferrarista. A expectativa era de abandono dos dois carros novamente. Na 30ª volta, Alesi abandonou mesmo. Mas Prost mostrou por que era genial e conseguiu colocar o Ferrari 643 em 3º lugar, chegando ao pódio na casa da escuderia italiana. Após a prova, o francês disse que o carro estava “melhorando”.

Doce ilusão. Na corrida seguinte, em Portugal, Alesi finalmente conseguiu um bom resultado e foi o terceiro lugar. Prost, por sua vez, abandonou na 39ª volta. O clima já estava muito pesado na equipe, e Prost fez questão de piorar ao sumir do autódromo sem falar com a imprensa. Havia uma expectativa sobre o anúncio de seu futuro na Fórmula 1. Alesi, em entrevista à Folha, não gostou nada disso. “Seria bom que ele falasse logo o que resolveu, porque essa indefinição está prejudicando a equipe”, disse o companheiro de Prost.

Enquanto Mansell conseguia diminuir um pouco a distância para Senna e colocava fogo na briga pelo campeonato, Prost e a Ferrari continuavam às voltas com o destino da equipe e do francês para 1992. No GP da Espanha, o assunto do momento era uma possível conversa entre a escuderia italiana e Nelson Piquet, na época correndo pela Benetton.

A possibilidade de compra de uma das cotas de transmissão da TV Globo pela Fiat, dona da Ferrari, aumentava as especulações sobre o interesse da empresa no mercado nacional ao aliar sua marca à Fórmula 1. Piero Ferrari, filho de Enzo, admitia naquela ocasião que havia “problemas com Alain Prost”.

A essa altura, Prost já havia topado um contrato com a equipe francesa Ligier. O problema era a multa rescisória, considerada muito alta. A Ligier tinha motores Renault, empresa dona da equipe que demitiu Prost na década de 80. De fato, o então tricampeão do mundo faria testes com o carro francês na temporada seguinte, sem sucesso.

O Ferrari 643 causava profunda irritação em Prost, mas o descontentamento ainda chegava à imprensa em forma de tristeza com os resultados apresentados na temporada. Na Espanha, Prost voltou a surpreender e ficou na segunda colocação, conseguindo colocar o carro entre as duas Williams, com Mansell vencendo e Patrese fechando o pódio. A vitória do inglês, inclusive, impediu o título antecipado de Senna, que acabou na quinta posição.

Para quem pensa que o bom resultado aliviou os ânimos, a coisa não foi bem assim. Prost descascou a Ferrari logo após a corrida por causa da escolha dos pneus. Ele achava que poderia ter vencido a prova. “Se eu corresse para qualquer time que não fosse a Ferrari, largaria com slicks e provavelmente teria vencido. Só que por causa dessa p… de pressão, dessa pressão estúpida, não se consegue trabalhar sossegado, a equipe não te dá uma liberdade de movimentos”, afirmou.

A situação já era quase insustentável. No GP do Japão, mesmo com a saída de Mansell enquanto lutava pelo título com Senna, Prost foi apenas o quarto colocado. Alesi não completou a prova. A diferença de Prost para o vencedor, o austríaco Gerhard Berger, era de quase uma volta. Foi a gota d’água para o francês.

Após a corrida, Prost comparou o Ferrari 643 a um “caminhão”. A referência foi a gota d’água para a Ferrari, que anunciou a demissão do francês. Pela segunda vez, o piloto era demitido de uma equipe na Fórmula 1. A escuderia disse que a comparação tornava impossível sua permanência, mas o caso acabou sendo a chance que o time de Maranello precisava para se livrar de Prost.

O italiano Gianni Morbidelli correria a última corrida do ano no lugar de Prost, terminando com a sexta posição. Alesi não completou mais uma vez. No total, o Ferrari 643, o “caminhão”, chegou ao pódio em seis das dez corridas que disputou. O problema era não passar do segundo lugar, ter um total de oito corridas com pelo menos um – quando não os dois – carros abandonando. Aquele modelo entrou para a história como uma falha da Ferrari.

Prost tiraria um ano sabático após resolver não correr pela Ligier. 1992 ficaria marcado como um ano de domínio absoluto da Williams. O francês acabou contratado pelo time inglês e conquistou o tetra em 1993. A Ferrari só conquistou um título mundial de pilotos em 2000, com Michael Schumacher.

** Relembre as reportagens anteriores da série Carros do Passado no Papo de Velocidade



Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016. Também colabora com o ONDDA, site "irmão" do Torcedores.com.