Por que estamos discutindo o calendário do futebol brasileiro?

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Após a Copa do Mundo, voltam a tona as discussões do Bom Senso e a necessária alteração do calendário do futebol brasileiro. Inclusive fomos noticiados que a CBF não visa alterar os estaduais para 2015. Porém, apesar de todas ideias e propostas, por que estamos discutindo o calendário?

Um dos principais argumentos tal discussão é a média de público dos campeonatos disputados no Brasil. O Carioca obteve nesse ano uma média de 2.828 pagantes, o Paulista contou com 5.675 pagantes e o Campeonato Brasileiro, até o momento, possui obteve 13.099 pagantes por jogo.

Bom, não preciso apresentar a média de público dos principais campeonatos do mundo, só a MLS (liga americana), com 18.807 pessoas por jogo, já demonstra que algo está muito errado com o país do futebol.

O autor do livro ”Futebol Brasileiro: um projeto de calendário” Luis Filipe Chateubriand indica que um novo calendário deve considerar as seguintes premissas:

  • Adequação ao calendário europeu;
  • Jogos da principal competição, o Campeonato Brasileiro, somente aos fins de semanas;
  • Clubes não devem jogar quando as seleções jogam;
  • O número de datas reservadas para competições estaduais ou regionais deve ser reduzido;
  • Clubes não devem jogar excessivamente, nem ficar extensas épocas sem atuar.

É fácil perceber a discrepância entre o calendário brasileiro com o resto do mundo, até mesmo a Argentina adequou seu modelo. E isso não cria somente uma falta de sinergia entre o futebol mundial, mas problemas comerciais.

Bom, a adequação do calendário ao praticado na Europa não somente evita questões como a paralisação do Campeonato Brasileiro após 10 rodadas para disputa da Copa ou a continuidade deste durante as datas Fifa (como na Copa América de 2011), mas também corrige problemas relacionados a janela de transferência, já que clubes brasileiros costumam perder jogadores no meio da disputa do campeonato, atrapalhando qualquer planejamento.

Esta adequação também cria oportunidades de novos negócios e internacionalização da marca. Como? As respostas mais básicas são as pré-temporadas e excursões.

Equipes europeias realizam excursões para outros países durante as férias. Na preparação para a temporada 2013/2014 o Real Madrid enfrentou o Lyon na França, o PSG na Suécia e participou de um torneio nos EUA com LA Galaxy, Chelsea, Internazionale. Já o Barcelona há cinco anos realiza excursões pela Ásia.

Hoje, no período após a Copa do Mundo, e pré-temporada, vemos Real Madrid, Milan, Roma, Manchester, entre outros, disputando a Champions Cup nos EUA com um sucesso de público e ações juntos aos torcedores. Logo, um sucesso comercial.

Mesmos os menores clubes conseguem executar este tipo de estratégia. Em 2011, Lille e Marseille decidiram a Super Copa da França no Marrocos para um público de 33.900 pessoas.

O primeiro fator que justifica essas excursões é claro e simples: as receitas geradas com bilheteria, premiações, transmissões e venda de produtos durante o evento. Em 2011, somente com a participação, o Internacional faturou 500 mil euros na Copa Suruga.

Porém, tal ponto possui um mote muito maior que se dá pela internacionalização da marca. A realização de pré-temporadas em outros países possibilita uma aproximação e relacionamento do time com os torcedores locais o que irá gerar oportunidades mais rentáveis futuramente. Como exemplo, a página do Facebook do Barcelona tem seu maior número de seguidores na Indonésia (4,73 milhões de fãs), além de possuir seu site oficial em chinês que busca atingir 800 milhões de pessoas.

Existem críticas sobre um calendário parelho por não considerar questões climáticas do hemisfério sul. Pois bem, os estaduais abrangem jogos durante janeiro, período em que cidades como Rio de Janeiro chegam a 45⁰. E sobre as datas comemorativas, ligas como a inglesa costumam registrar grandes médias de público no Boxing Day (dia após o Natal).

Claro, a equivalência do calendário brasileiro ao europeu não é a única solução, e pode nem ser uma saída já que Michel Platini admitiu recentemente que a Uefa pode pensar em um modelo baseado no ano fiscal janeiro-dezembro.

O principal problema são os jogos excessivos ou a falta deles. Ou seja, como encaixar os Estaduais e o que fazer com os clubes não disputam nada além dele?

O São Paulo em 2013 disputou 79 partidas, e poderia ser mais caso se classificasse para as finais da Libertadores. Enquanto isso, clubes como o Mixto-MT que ficará sem jogar até o fim do ano após sair da Copa do Brasil. Caso este de 82% dos clubes que atuam apenas durante 4 meses acarretando em 12 mil atletas desempregados durante a maior parte do ano.

Esse cenário motivou a criação do Bom Senso F.C, que dentre outras coisas, também reivindica a melhoria do calendário do futebol nacional. E, baseados na proposta de grandes estudiosos do mercado como Amir Somoggi e Fernando Ferreira, apresentaram recentemente uma proposta para tal melhoria, com a inclusão da Serie E e a existência de Copas Estaduais.

A Série E que contaria com 452 clubes, divididos em 36 grupos, ocorreria de fevereiro a dezembro, com uma média de 30 jogos por clube. Seriam promovidas 36 equipes para a Série D que, por sua vez, contaria com 144 clubes divididos em 12 grupos. Além disso, os estaduais seriam disputados em forma de Copas em oito datas.

Pode ser que esta não seja a melhor proposta de um calendário para o futebol brasileiro. Porém, é fato que estamos discursando um pouco menos e tentando tornar realidade algumas ideias que já deveria ter sido realizadas há muito tempo, falta a CBF e os clubes também aceitarem essa realidade.

Com a melhoria necessária do calendário, pode-se pensar em outros problemas associados à volta do torcedor ao estádio e potencialização comercial, e técnico, do Matchday.

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Empreendedor, formado em Administração e Gestão de Projetos. Acha que a assistência é mais importante que o gol e sempre quis ser um camisa 10, mas foi no máximo a 2. Enxerga o esporte mais do que as quatro linhas, acredita ser um negócio, uma manifestação social, uma experiência única. Espera transformar o futebol brasileiro em uma Champions League.