O refinamento do futebol – e da vida

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Dizem que o ser humano tem uma tendência inata a querer sempre mais. Se é desprovido de calçados, quer ter um chinelo; se ganha um chinelo, quer comprar um sapato. Uma vez com o sapato em mãos – ou pés, passa a necessitar um tênis com amortecedor, indicado para correr médias distâncias, a fim de evitar lesões nas corridas de fim de semana no parque.

O mesmo se dá com a prática do futebol cotidiano – ou seja: o amador, das ruas, das brincadeiras. Quando estamos na escola, com nossos seis ou sete anos, uma latinha de refrigerante amassada assume o papel de bola sem problemas. Uma porta ou um portão da escola servem como baliza. E começa a partida: lata rolando, dribles lentos, passes raros e curtos, chutes invariavelmente rasteiros. As opções de jogada são limitadas e os golaços, como aqueles da TV, quase impossíveis. Mesmo assim, a latinha garante a diversão do intervalo – e ninguém reclama.

Com o passar dos anos e o ganhar dos quilos e centímetros dos jogadores, faz-se necessário um espaço mais amplo para a prática do football. A rua de um dos jogadores, ou de vários, é escolhida para sediar as disputas. Na escolha da sede, a menos movimentada e mais plana leva vantagem. A bola usada é, veja só, redonda. Pode ser de plástico (as dente-de-leite) ou até aquelas semi-profissionais, com gomo e tudo. Duas pedras ou chinelos compõem os gols. Se tiver algum serralheiro ou marceneiro gente boa na rua e este se dispor a fazer dois golzinhos de madeira ou ferro, a festa está completa. Deleite e futebol moleque até a hora ir pra casa pra tomar banho e jantar.

Mas eis que as dificuldades da rua passam a se impor: joelhos ralados, vizinhos mal-humorados, carros em excesso, bolas perdidas… Os problemas incomodam cada vez mais. É preciso encontrar um local dedicado exclusivamente ao futebol: a quadra no parque (ou praça) mais próximo. Lá todos esses empecilhos inexistem, e ainda há as balizas do mesmo tamanho das usadas no futsal, o terreno perfeitamente plano, as linhas demarcando o meio de campo e até as duas áreas. Dá para saber quando um chute alto entrou ou não, sem a necessidade de debate sobre qual a altura do travessão imaginário dos jogos na rua. Não há mais do que reclamar, definitivamente.

Até que os problemas extra-quadra aparecem. Primeiramente, não queremos ficar de próximos, esperando acabar um jogo que, dependendo da regra (tipo “dois gols acaba”), pode durar mais de meia hora. Em segundo lugar, é melhor jogar apenas entre amigos, pois nos sentimos mais à vontade para brincar, provocar, driblar, e até fazer faltas sem se expor ao risco de arrumar uma briga. Além disso, ter de buscar a bola quando ela é jogada para fora da quadra é incômodo, além de gastar a energia do jogador-gandula da vez, energia esta que poderia ser mais bem empregada no jogo em si.

A solução é alugar uma quadra de futebol society. Além do nome rebuscado, com uma palavra em inglês em sua composição, este tipo de ambiente proporciona outras vantagens, tais como: balizas maiores, grama sintética e/ou de borracha, times fechados (contando no máximo com amigos de amigos, caso se faça necessário), ausência de qualquer incômodo durante o tempo marcado, campo maior – que possibilita até o luxo de definir-se posição fixa dos jogadores e esquema tático, etc. etc. etc. É praticamente um futebol high-society.

Essa tendência de melhorias do futebol cotidiano, que aos poucos se torna semanal ou mensal, pois ninguém mais tem preparo físico para jogar todos os dias, eu gosto de chamar de refinamento. Cada vez que passamos a um nível mais alto de condições de jogo (e não de nível técnico, necessariamente), descobrimos problemas que não pensávamos existir na nova realidade. Então queremos mais e melhor, e mais e melhor de novo. É um pouco o que acontece em nossa vida material e na sociedade em geral: quanto mais bens e direitos adquirimos, mais bens e direitos queremos ter.

Isso não me parece bom ou ruim. É humano. Como também é humano suar, digo, transpirar, então não podemos esquecer os coletes individuais e os desodorantes de spray pro jogo do próximo sábado.



Jornalista formado pelo Mackenzie. Fã de futebol, tanto nacional quanto europeu.