Grondona se foi. E a decadência  do futebol argentino, terá ido junto? 

grondona

Faleceu na madrugada desta quarta-feira, em Buenos Aires, um dos grandes pilares políticos do esporte argentino, na opinião de alguns. E um dos bastiões do conservadorismo no futebol do país vizinho – e por que não dizer, sulamericano e mundial – na opinião de outros. Júlio Grondona, presidente da AFA e vice-presidente da FIFA, teve problemas de insuficiência cardiorrespiratória após passar mal e não resistiu.

Ele tinha 82 anos e era presidente da Associação de Futebol Argentino desde 1979. Tempo para caudilho nenhum do nosso continente colocar defeito. Até porque, de defeituosa, bastaria a sua gestão, que trouxe apenas uma Copa do Mundo, em 1986, e muitos problemas internos e suspeitas, no mínimo, desconfortáveis. Já escutou falar de algo assim no mundo do futebol, caro leitor?

Grondona foi colocado na presidência da AFA por Jorge Videla, um dos mais atuantes generais militares da Argentina – em um período que teve a ditadura militar como o acontecimento mais terrível do país, entenda como preferir o termo “atuante”. Fundador do Arsenal de Sarandí junto com seu irmão, Héctor Grondona, no ano de 1957, presidiu o clube e conseguiu colocá-lo em patamares cada vez mais altos. Hoje, Humberto Grondona (aquele mesmo suspeito de venda ilegal de ingressos em pleno jogo da Seleção Argentina na Copa do Mundo deste ano) preside o clube da província de Buenos Aires, imitando os passos paternos. Mas Grondona pai também teve uma passagem pelo staff diretivo do Independiente, o que confirma uma biografia de líder influente – condição que também ajudaria o imediato direto de Blatter a mexer os pauzinhos em várias questões ao longo do passado recente da FIFA. Ultimamente, Grondona se notabilizou – além da sua recusa em deixar a entidade platina para algum sucessor – pelos bate-bocas com Diego Maradona. Desde a Copa de 2010, na África do Sul, pela não aceitação de El Pibe em deixar o comando da Seleção Argentina, os dois se tornaram inimigos declarados. E desde então foram várias farpas, inclusive algumas recentes na nossa Copa do Mundo.

“Ainda sigo como presidente da AFA porque sou o menos pior”

(frase célebre proferida por Júlio Grondona, entre muitas outras) 

De importante, restam algumas reflexões. Primeiro, que diferença prática poderá fazer essa passagem forçada de cetro para Luis Segura, que era o atual vice-presidente da AFA e preside o Argentinos Juniors? Haverá uma moralização do futebol platino, já bastante desgastado com as acusações de corrupção e mudanças de regras a cada tanto? Haverá uma mudança de rumo no esporte do país vizinho, ou Segura apenas manterá o cargo provisoriamente até eleger outro clone nas próximas eleições da entidade? Haverá um proveito da oportunidade que pode estar sendo dada, pelo destino, ao futebol argentino, através da revisão de uma série de fatos e fatores que, assim como tem acontecido no nosso próprio futebol, atrapalha e atrasa o desenvolvimento desse esporte no país hermano? Todas perguntas a serem verificadas, com chances consideráveis de termos, de antemão, respostas pouco animadoras. Mas para nós, parece interessante ficarmos de olho. Afinal, segundo sempre pareceu nas últimas décadas, a AFA é a CBF que fala espanhol e gosta de cumbia (costumava gostar de tango, mas essa época já passou). Talvez tenhamos muito para aprender – ou para ficar atentos – com a sequência dos fatos da bola no país mais ao sul.



Redator, professor e compositor. Tive a honra de começar minha jornada no Departamento de Telejornalismo da Bandeirantes, junto a Mauro Beting. Fã dos esportes em equipe, sou um devoto dos torneios internacionais. Acredito que o futebol, como qualquer paixão, tem que ser vivido no coração e na mente. Sem excessos e com bom senso.