Opinião: Gestão do Flamengo tropeça, mas não cai

Site oficial do Flamengo

Nos deparamos com uma lamentável matéria da Veja Rio nesta semana, que descreve como “frustrada” a atual gestão do Flamengo ao dizer que “nada saiu como o esperado e a decepção é do tamanho da torcida rubro-negra”. O jornalista ouviu um ex-presidente interminável e o principal líder da oposição e ex-chefe de torcida. Parece que não quis ouvir a outra parte, um jornalismo com o selo da marca. Logo após a ciência da matéria, o Flamengo enviou uma nota aos sócios respondendo as palavras da revista.

O artigo começa errado no título. Sob o nome de “Deu tudo errado”, o jornalista cita algumas das atitudes desastradas da gestão, que de fato aconteceram. Sem explicar muito ou dar detalhes, chuta o bêbado, então último colocado do Campeonato Brasileiro. Bater em cachorro morto é fácil. A imprensa adora. Destrinchar da onde vem o dinheiro do Cruzeiro, atual campeão e rumo ao bi-campeonato, só pra citar um exemplo sem qualquer intuito, ninguém quer. Mas até aí, passa, já estamos acostumados.

Acontece que a publicação trata o mandato, que está na metade, como uma completa decepção, ao dizer que deu TUDO errado. MENTIRA. A nota do clube aos sócios traz demonstrações de que coisas deram certo. Em se tratando de Flamengo, muitas coisas deram certo.

A forma como se administra o futebol é alvo de justas críticas. Pouco entendida no assunto e mal amparada por diretores remunerados de competência questionável, a diretoria rubro-negra faz o principal esporte do clube patinar. Preço do ingresso, demissões mal esclarecidas, contratações muito mal feitas e escolhas sem coerência são alguns pontos negativos pelos quais os Azuis, como são chamados pelos torcedores, se destacam negativamente. E isso é quase unanimidade.

Mas há pontos positivos também, e na minha visão, muito maiores do que em outras gestões. As demissões, por exemplo, criticadas pela forma que foram conduzidas por vários jornalistas bastiões da ética, saíram mais baratas do que as de gestões anteriores. A dispensa de treinadores e técnicos, praxe no futebol brasileiro, é um importante montante das dívidas dos clubes. A atual gestão do Flamengo sabe disso e os acordos, conforme apuração da própria imprensa, saíram bem mais em conta do que em ocasiões anteriores.

Os salários milionários de contratações megalomaníacas, causa de parte grande da dívida do clube, não estão mais na pauta. Se algumas remunerações são altas e jogadores como Carlos Eduardo ganhavam seus tantos mil, a culpa não é só do Flamengo.

O mercado está inflacionado e caras como ele, que jogaram bola meia-dúzia de vezes na vida, tiveram seus nomes na camisa da seleção e cavaram uma vaguinha em algum mercado periférico da Europa, exigem esse valor de ganha-pão. De resto, o Flamengo fez algumas apostas de times pequenos. Algumas vingaram e hoje, Paulinho e Hernane são valorizados no mercado. Outras contratações menos bem sucedidas foram bancadas por grupo de empresários ou investidores, também praxe de um futebol no vermelho.

Sem contar no título da Copa do Brasil, ainda que os dirigentes não tenham lá grandes méritos, que está na galeria de conquistas do clube, certamente como uma das mais importantes. Até no futebol, que o clube vai mal, não “deu tudo errado”. A pesada herança da, esta sim, FRUSTRANTE E DESASTRADA gestão anterior também contribui para que o clube ainda não seja aquilo que os torcedores querem.

E fora de campo o que tinha pra ser feito, foi feito, como mostra a nota do clube. A administração financeira é bem sucedida sim, como mostra a nota do clube, ainda que os salários estejam atrasados (pela primeira vez), por culpa de uma execução de dívida da época em que o clube era presidido por um midiático, megalomaníaco e pé-frio presidente. Que aliás, tem coragem de ainda dar seus palpites por aí.

O basquete continua bem e melhorou: ganhou um título internacional inédito. Os esportes olímpicos, cujo fechamento foi tratado como crime no começo da gestão, agora são autossustentáveis e contam dinheiro de financiamento público, conseguido graças ao pagamento de dívidas. Jade Barbosa, que saiu chorando, criticando e esperneando, hoje volta com a certeza de que seu salário estará em dia e que o aporte não acabará. E que as condições devem melhorar significantemente, agora com o apoio das verbas públicas.

À época das eleições, apesar de não ser sócio ainda, torci para que a então Chapa Azul assumisse. Pensava que seriam eles os responsáveis por limpar a área dos vícios dos antigos cartolas, melhoras as finanças e fazer uma gestão segura e séria, para o clube respirar e então, no próximo mandato as finanças estarem resolvidas. E óbvio que isso só pode acontecer se o clube estiver na primeira divisão, o que ainda não dá pra cravar que vá acontecer.

A gestão da atual diretoria do Flamengo é boa. E a torcida sabe. A cobrança aos pontos errados é feito de maneira, até agora, justa. Como toda arrumação de casa, nem toda sujeira sai de uma vez e de vez em quando quem limpa derruba quebra alguma coisa.

Ter alguém pra apontar nesse caso é útil. O trabalho é muito árduo e tampouco será resolvido em três anos. Tropeçar faz parte, e enquanto se mantém de pé, não dá pra reclamar. O importante é que o caminho está certo.

Crédito da foto: Site oficial do Flamengo



Carioca, bacharel em Direito e bacharelando em Jornalismo pela FACHA. Não escolheu o jornalismo mas foi escolhido por ele. Sonho profissional: casar com a editoria de esporte e ser amante das páginas de política. Resumidamente, um cronista do cotidiano, comentarista do dia-a-dia e palpiteiro da rotina.