Loebeling: “arbitragem brasileira virou um grande BBB”

Reprodução/Facebook

Entrevistei com exclusividade o ex-árbitro da Fifa, Alfredo dos Santos Loebeling. Vários assuntos foram discutidos e todos eles respondidos com muita clareza, como não poderia deixar de ser, já que personalidade sempre foi um dos pontos fortes de Loebeling.

De onde surgiu a vontade de se tornar árbitro de futebol?
A vontade de ser árbitro surgiu na infância, quando eu organizava campeonatos de futebol de botão e apitava os jogos, depois quando jogava na várzea e arbitrava os jogos de outras equipes, no Parque do Povo, em São Paulo.

Você se espelhou em algum árbitro ou tentou criar um estilo próprio?
Honestamente acho que se espelhar é algo complicado e nunca desejei inventar um estilo, mas sempre admirei muito o já falecido Dulcidio Vanderley Bosquila. Sem conversa e sem ser político, era o melhor de todos de sua geração.

Você participou de 732 partidas oficiais. Tem como apontar algum jogo que tenha sido mais especial em sua carreira?
Claro que as finais são importantes, mas jamais vou esquecer o primeiro de maio de 1994, dia da morte do Senna. O Morumbi lotado e as duas torcidas gritando juntas o nome do piloto…de arrepiar.

Em toda sua carreira, foram 17 finais de campeonato estadual. Qual delas foi a mais difícil de se arbitrar?
Acho que as duas finais que atuei no Ceará. Não apenas pela rivalidade entre Fortaleza e Ceará, mas principalmente porque foram jogadas em estádios pequenos, com muita pressão.

Quais os jogadores que mais tentavam atrapalhar o seu trabalho em campo?
Difícil citar um jogador apenas, mas sempre digo que quanto maior é o nível cultural do atleta, mais ele conhece as regras e os seus limites com a arbitragem. Infelizmente o inverso é verdadeiro.

Em 2002 você demonstrou muita personalidade ao encerrar a carreira após recusar-se a aceitar interferência do então diretor da CBF, Armando Marques. Como foi que se deu essa decisão? Você tem algum arrependimento nesse episódio?
Essa é a pergunta que me faço diariamente. Deixei de fazer o que mais gostava, mas fiquei com a verdade, com os valores que meu pai me deixou. Talvez se eu tivesse agido com interesses escusos, mentindo e tentando obter vantagens, nem essa e nem outras entrevistas teriam acontecido. Não me arrependo, mas aprendi uma coisa: No Brasil, justiça só para quem tem poder.

Você acredita em manipulação de resultados no futebol?
O quadro de árbitros no Brasil é formado em sua grande maioria por pessoas sérias. Mas é claro que não coloco a mão no fogo por 100% deles. Assim como não coloco por jogadores, dirigentes, etc. Os sites de apostas existem aos montes e, é claro, que fica muito fácil você manipular alguma coisa.

Você criou algum desafeto durante os seus 12 anos de carreira?
Acho que criei vários desafetos, mas tenho a certeza de que consegui muito mais amigos. Gente que até hoje me procura, tenta descobrir como estou, como jogadores e ex-jogadores que não tem essa obrigação, mas que fazem sempre que podem.

Qual a sua visão do atual momento da arbitragem brasileira?
A arbitragem brasileira vive um péssimo momento, porque é comandada por quem nunca foi árbitro. Escolhem os presidentes das comissões de forma política, e não técnica, além disso estão avaliando os candidatos como se fosse um grande BBB. Só caras altos, fortes e meninas bonitas, com corpos bonitos. Não há racionalidade nisso.

De acordo com sua larga experiência, acredita que algum dia haverá a profissionalização dos árbitros?
A questão da profissionalização é simples. Quem vai arcar com os encargos sociais? Os clubes? A maioria não recolhe nem o FGTS de seus atletas. Jamais vão cuidar dos árbitros.



Jornalista com passagens pela Rádio K (Goiânia) e sites Portal MF e PlanetaSportivo. Atualmente é Apresentador e Comentarista da Rádio RDG Esportes (www.rdgesportes.com.br) e editor de esportes do Jornal O Regional.