Cruzeiro vive em céu de brigadeiro no Brasileiro

Getty Images

Cruzeiro, Cruzeiro querido! Tão combatido, jamais vencido!

Nunca este trecho do hino do Cruzeiro fez tanto sentido quanto nas duas últimas temporadas, pelo menos em se tratando de Campeonato Brasileiro.

Ano passado, em uma campanha quase perfeita, o Cruzeiro foi campeão com quatro rodadas de antecedência, igualando o recorde do São Paulo, que em 2007, havia conseguido a mesma proeza. Ambos os times foram os campeões que mais cedo decidiram o título a seu favor na história dos pontos corridos.

Com 23 vitórias em 38 partidas, a equipe, já comandada por Marcelo Oliveira, apresentou um futebol vistoso, agressivo e que dava poucas chances a seus adversários. Essa aposta na intensidade, muita movimentação dos jogadores de frente e um consequente grande volume de jogo, fez do Cruzeiro a esquadra que mais se aproxima do futebol jogado atualmente pelas grandes equipes da Europa e mescla um pouco do que foi apresentado pelas duas últimas campeãs mundiais, Espanha e Alemanha.

Nem mesmo a eliminação precoce na edição atual da Libertadores tirou de Everton Ribeiro e companhia o foco no estilo de jogo que tornou o time o único representante legítimo do que um dia conhecemos como “futebol brasileiro”.

Não que seja um futebol-arte propriamente dito, uma vez que, a despeito dos talentos individuais de Dagoberto, Lucas Silva e Júlio Baptista (para citar alguns), o jogo do Cruzeiro é mais coletivo, de toque de bola, do que de habilidade e jogadas individuais que, propriamente, decidem as pelejas.

Porém, ao analisar os concorrentes diretos da Celeste nesse ano e ponderando o cenário do ano passado, é notória a diferença de qualidade e, principalmente, coesão entre o que sabemos ser o futebol-arte e o futebol que se joga por essas bandas.

A goleada aplicada no agora lanterna Figueirense, no sábado, mostra, além da discrepância entre o líder e o restante, a força do elenco, uma vez que quatro, dos cinco gols foram marcados no segundo tempo, quando algumas substituições já haviam sido feitas. Sem contar que, nas primeiras rodadas, justamente devido à disputa da Libertadores, foi o time reserva quem representou as cores do time mineiro.

Ricardo & Marcelo – Nome de dupla sertaneja e eficiência de dupla matadora

Um dos grandes trunfos dessa boa campanha está nos matadores Marcelo Moreno e Ricardo Goulart. Juntos, eles fizeram metade dos gols da Raposa na atual edição do campeonato nacional (14).

O primeiro é velho conhecido da torcida, uma vez que já havia defendido as cores do Cruzeiro em uma passagem anterior, que durou um ano e meio, entre 2007 e 2008.

O segundo, contudo, chegou à equipe de forma discreta, no começo de 2013. Vindo do Goiás, na época campeão da Série B, Goulart era visto como peça de reposição, ou seja, apenas mais um no elenco, montado justamente para chegar longe, para pensar grande.

Acabou ganhando a titularidade ao longo da temporada, com atuações extremamente impecáveis, sendo útil tanto taticamente, quanto individualmente. O jogador desconstruiu, em apenas alguns meses, o conceito de “apenas mais um” e se tornou uma das referências.

O ano de 2014 mostra bem isso tudo: Goulart é o artilheiro isolado do Brasileirão, com 8 gols marcados. Na temporada, contando Campeonato Mineiro, Libertadores e Amistosos, o atleta anotou 17 tentos, sendo 12 deles nos últimos 13 jogos.

Se, porventura, tais números não sejam suficientes para demonstrar o poder de fogo do garoto, eu me pergunto…

O que é o futebol?

Até pouquíssimo tempo atrás eu tinha a convicção de que futebol era bola na rede. Esquemas táticos, marcação cerrada, jogadas ensaiadas, alas no lugar de laterais, falso centroavante, enfim, era grande a certeza de que tudo o que era feito em campo era em prol de marcar gols. Afinal, são eles que dão as vitórias e os títulos, não?

Analisando, porém, os adversários do Cruzeiro e vendo a diferença considerável de pontos que ele tem para os demais (ainda estamos na 12ª rodada), fico em dúvida se, realmente, o objetivo do futebol seja ainda fazer gols.

Corinthians, Fluminense, Internacional e Sport, os quatro que vem logo atrás na tabela, fizeram, respectivamente, 15, 20, 18 e 11 gols. Concordo que o tricolor carioca e o alvirrubro gaúcho tenham uma boa margem de gols pró, porém, ainda assim, são 8 e 10 a menos do que o que fez o Cruzeiro.

A pontuação deles é reflexo disso. O segundo colocado, Corinthians, está a 5 pontos de distância e precisa, para no mínimo alcançar a liderança, de dois tropeços da Celeste, algo que não acontece desde as últimas rodadas do ano passado, quando o time mineiro já era o campeão.

Dá pra acreditar que isso aconteça? Eu, sinceramente, não consigo.

Só consigo, na verdade, olhar para o topo da tabela e ver as cinco estrelas do símbolo brilhando forte. Está tudo azul para a Cruzeiro. Como um bom céu de brigadeiro.

Crédito da foto: Getty Images



Tudo o que preciso é um papel e uma caneta. Apaixonado por esportes desde 1900 e bolinha: de futebol, basquete, tênis, rugby...