Saiba como foram os meses finais da carreira de Senna

É quase impossível escrever sobre algo relacionado a Senna que ainda não tenha sido dito: a vida pessoal, os números, as proezas nas pistas são alvos de inúmeros textos, livros e até documentários. Jornalistas importantes já fizeram reportagens extremamente completas com inúmeras entrevistas. A análise sobre Senna chega a ser uma investigação até. Mas sempre senti falta de um texto falando sobre o contexto dos últimos meses da carreira de Senna. Nos lembramos dos melhores momentos de sua carreira, de sua morte, da comoção nacional… mas não nos lembramos com frequência do contexto da época.

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Em 1992, ano de grande domínio da Williams na F1, Prost assina para dirigir com a Williams e inclui no contrato uma cláusula que impede Senna, seu maior rival, de ser contratado para ser seu companheiro de equipe. Senna se oferece para dirigir de graça para a Williams para ter a chance de ser campeão mas é barrado por esta cláusula. Porém, este adendo no contrato teria validade de apenas um ano, abrindo a possibilidade de Senna ser contratado para a temporada de 1994 caso houvesse interesse mútuo.

No ano de 1993, Alain Prost e Damon Hill eram a dupla de pilotos da Williams. A Williams, que já vinha de um ano de domínio absoluto em 1992, obteve 15 pole positions naquele ano contra apenas uma da McLaren. Prost se tornou campeão por antecipação e Hill e Senna disputavam apenas a segunda posição no mundial. O motor Ford Cosworth do McLaren MP4/8 era fraco demais para disputar o título, sendo inclusive considerado inferior ao da Ferrari (equipe em decadência na época) e Benetton (equipe de porte muito menor do que a McLaren). Ainda assim, Senna conseguiu 5 vitórias naquele ano, inclusive na última corrida da temporada, na Austrália.

Um pouco antes disso, quando já se sabia que aquele seria o último ano de Prost na Fórmula 1, a imprensa já pressionava Senna constantemente sobre a possibilidade de assinar com a Williams em 1993. As respostas evasivas davam a entender um possível interesse em se manter na McLaren. Mas o desempenho do carro estava muito abaixo e a McLaren mostrava que não teria mais condições de disputar título no ano seguinte, com uma estrutura em decadência. A equipe praticamente não teve segundo piloto no ano de 1993.

Tendo inicialmente Michael Andretti como companheiro de Senna conseguido apenas 7 pontos em 13 corridas (e diversos abandonos), apenas no final da temporada a equipe assina com Mika Hakkinen. O motor Ford já estava confirmado para o ano de 1994.

Senna mostra interesse pela Williams e Prost prefere se retirar a ter que ser seu companheiro de equipe novamente. Sem outros pilotos desse nível, com exceção de Schumacher que já estava comprometido com a Benetton, Senna era a escolha óbvia para ocupar o novo modelo da Williams e somar a qualidade do melhor carro à do melhor e mais bem sucedido piloto, tornando as chances dos títulos de construtores e pilotos as maiores o possível.

Próximo ao fim da temporada de 1993, finalmente, Senna decide abandonar a McLaren que lhe deu os títulos de 1988, 1990 e 1991 e assina com a Williams.

Diário Catarinense de 12 de outubro de 1993: “Dez anos depois do seu primeiro teste na Fórmula-1, com um carro Williams, Ayrton Senna acertou em definitivo, a sua entrada na escuderia de Frank Williams. O contrato entre o piloto brasileiro e a equipe britânica foi anunciado e valeria por dois anos. Senna ganharia pelo menos CR$ 2,160 bilhões” – a real data da assinatura do contrato foi 11 de outubro, tendo a matéria noticiado o acontecimento um dia depois).

Diversos componentes como freio ABS e suspensão ativa são considerados ilegais para a temporada de 1994 aumentando o equilibrio entre os carros e pegando a Williams, com a maior tecnologia na época, de surpresa. O carro era instável e a equipe estava aprendendo a lidar com as novas circunstâncias. O único GP em que é possível se analisar o desempenho de Senna na Williams acontece no Brasil. Senna é pole position, lidera por várias voltas e é ultrapassado por Schumacher ao passar nos boxes. Na volta pra pista, com dificuldade em ultrapassá-lo e desejo em vencer no Brasil novamente, acaba errando e saindo da pista. Este foi talvez o único duelo dos dois pilotos sem a participação de outros competidores desse calibre disputando com eles (como acontecera em 1992 e 1993).

Na corrida seguinte no Japão, Senna abandona no início da corrida após uma colisão. Em San Marino, após grave acidente com Rubens Barrichello e o acidente fatal de Roland Ratzenberger nos treinos, a atmosfera para o GP era muito tensa e Senna estava desconfortável com a situação da segurança na Fórmula 1. Num acidente até hoje inexplicável, o carro falha e Senna sai da pista e encerra sua carreira e sua vida em um acidente fatal.

Um dos legados que Senna deixa é o aumento da segurança na categoria, com inúmeras modificações sendo feitas no decorrer dos anos, as quais fizeram com que estas fossem as últimas mortes na Fórmula 1. No passar dos anos, outros acidentes graves continuam a acontecer e, mesmo sem que ocorressem mortes, novas adaptações vão sendo feitas para aumentar a segurança, como se as imagens destes acidentes sempre assombrassem a categoria. Infelizmente, em outras categorias do automobilismo, nos últimos 20 anos, ainda ocorreram mortes.

Se Senna não tivesse assinado com a Williams naquele ano talvez ele ainda estivesse vivo hoje, mas, ao mesmo tempo, isso significaria que ele teria optado por ficar na McLaren sabendo que não teria chance alguma de concorrer ao título. E, competir sem a intenção de vencer, com certeza, não era uma atitude que Ayrton Senna sequer pudesse cogitar.

Inspire-se com 20 frases de Ayrton Senna: