Meu jogo inesquecível de Copa: Brasil x Itália em 1994

copa

A final da Copa do Mundo de 1994 entre Brasil e Itália, realizada nos Estados Unidos, foi meu maior jogo da história em um campo de futebol.

Estudante e residente na Califórnia desde 1989, eu já tive o grande privilégio de receber a Copa ‘em casa’ uma vez. Com muita luta e perseverança, eu já tinha conseguido assistir as oitavas contra o EUA, quartas de final contra a Holanda e semifinal contra a Suécia. Mas nada teria valor se não conseguisse estar na grande final, no jogo do século, no jogo do Baggio, na partida do Tetra.

Sem ingresso, tive que armar uma estratégia sozinho, que ia me proporcionar participar e fazer história junto do Brasil. Acordei as sete da manhã (lembrando que o jogo começava ao meio dia) tomei café da manhã e fui para o Estádio Rose Bowl em Pasadena. No caminho parei na ‘Liquor Store’ (loja de bebidas) e carreguei o porta mala do carro com gelo e cerveja. Sabia que o dia seria longo e poderia fazer sucesso com as cervejas.

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Preocupado, fui rezando de casa ao estádio, pedindo ajuda na hora de comprar o impossível ingresso. Como chegaria bem cedo, apesar de estar sem ingresso, alguma coisa me dizia que conseguiria e estava perto de entrar na final.

1994 WORLD CUP FINAL

Cheguei em Pasadena. Era 8h30. Estacionei o carro, peguei minha carteira, coloquei a camisa canarinho e fui atrás do ‘sonho’. O estádio estava deserto, ninguém tinha chegado para a final. Com os ingressos garantidos, os torcedores só iam chegar perto da partida. Aliás, lá funciona o sistema. A gente consegue estacionar o carro e sentar na cadeira, mesmo chegando em cima da hora.

Saí do carro e comecei a andar, circulei todo o Rose Bowl e nada. Foi quando avistei lá, bem longe, uma família. Era um casal e duas crianças, o homem estava com o braço levantado segurando um papel. Pedi pra Deus e ele me atendeu.

Era um ingresso para a final, conforme eu ia me aproximando, fui me descabelando, gritando, queria garantir que me vissem. Eu consegui. De longe o homem me acenou, eu comecei a correr e fui conversar com ele. Era uma família mexicana. Lá nos Estados Unidos, eu morava com uma família mexicana. Por isso, já cheguei arranhando no espanhol e quando vi que realmente ele estava vendendo um ingresso para a final Brasil e Itália, fiquei de joelhos e pedi para comprar.

Tanto o homem e quanto a mulher, já dando muitas risadas, certamente pensaram: “Que louco esse moleque brasileiro”. Fiquei de pé. Fui logo tirando o dinheiro da carteira e falei: “Por favor, realiza um sonho de um louco brasileiro, quanto custa este ingresso?”. O homem, visivelmente emocionado com minhas atitudes, retrucou: “Custa 180 dólares e estou vendendo por 250”. Eu peguei o dinheiro da carteira, dei pra ele e ainda convidei a família toda para outro ‘café da manhã’, com cerveja de sobremesa.

1994 WORLD CUP FINAL

Depois, dei um grande abraço neles, fui encontrar meus amigos para entrar no estádio. Não encontrei ninguém e acabei assistindo a histórica final de 94 ‘sozinho’.

Ojogo foi aquela partida dramática, debaixo de um sol de 40 graus ao meio dia. 0X0. Prorrogação. Penais. Baggio…É tetraaaaa! Me lembro de ter ajoelhado e chorado feito uma criança. Abraçado a brasileiros que nunca tinha visto na vida, mas que também choravam, e naquela hora estavam ali como ‘irmãos’ de uma mesma nação, a nação do futebol.

Saí do Rose Bowl, encontrei meus amigos e fomos para as ruas e bares de Pasadena festejar o tão esperado tetra com o Olodum.

Nascido em 1971, cresci escutando ‘Pra Frente Brasil’ e na minha casa, ‘Deus’ era o Pelé, o Rivellino, o Tostão e cia.

1974, 78, 82, 86, 90…foram cinco Copas do Mundo com sonhos e decepções. Estar no estádio na final da Copa de 1994, e ter o privilégio de ver o Brasil campeão do mundo em cima da Itália de Baggio, Maldini e Baresi, foi incrível. Era a primeira vez que minha geração sentia aquela alegria. Foi um sentimento maravilhoso que lembro até hoje.

Romario

Crédito das fotos: Getty Images



Sou amante e estudioso de esportes! Nasci em São Paulo, estudei em Los Angeles, NY e fiz pós-graduação em Barcelona, sempre acompanhando de perto as competições esportivas pelo mundo.