A seleção brasileira não pode ser culpada pelos problemas da Copa

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Existe um movimento informal, mas nada irrelevante, de pessoas que vão torcer contra a seleção brasileira na Copa do Mundo. Nada contra, afinal é legítimo o direito de cada um torcer por quem bem entender. Tenho amigos que torcem pela Argentina ou pelo Uruguai. Os motivos são variados, vão desde a identificação com o estilo de jogo até o modo de torcer. Um de meus primos torce sinceramente para a Inglaterra. Outro, para a Holanda.

Mas esse movimento defende que torcer pela seleção seria o mesmo que apoiar o status quo da política nacional. Ou ser submisso aos desmandos de nossos cartolas, sobretudo da CBF. Há ainda quem diga que a vitória da Seleção pode influenciar o resultado das eleições do outubro em favor do PT.

Não vejo tal relação de causa em consequência, mesmo no caso mais íntimo, entre a seleção e a CBF. Há um grande número de pessoas que desejam o fim do sistema feudal da entidade tanto quanto o hexa.

O fato é: o país não vai melhorar se a seleção perder nem piorar se a taça do mundo for nossa de novo.

A ineficiência da esfera governamental – federal, estadual ou municipal – é crônica, e o caráter de nossos políticos independe se o Brasil goleou os EUA na final ou caiu na primeira fase. Os aeroportos já eram ruins, e continuariam sem a Copa. O transporte público é insuficiente desde que me entendo por gente – pode até ter melhorado, mas está sempre correndo atrás da demanda.

Nesse ponto abro uma ressalva: é inegável que a Copa foi utilizada como catapulta de promessas do tal “legado”. Não cumpri-las é mais um tiro no pé do que manipulação, pois ao serem associados a um evento tão grande, tais compromisso ficam menos esquecíveis.  E nem vou entrar no mérito dos estádios de Cuiabá, Manaus e Brasília. Prefiro esperar para ver se há algum desenvolvimento local do futebol.

Sobre as eleições, nada mais errado que dizer que o resultado da seleção determina o das urnas. Essa tese é derrubada empiricamente. Basta lembrar que perdemos em 1998, e a despeito de todas as teorias da conspiração, FHC foi reeleito. No 1º turno. Em 2002 fomos penta, e Lula foi eleito ao derrotar o situacionista Serra. Em 2006 e 2010, mesmo com os vexames ante França e Holanda, Lula foi reeleito e Dilma o sucedeu.

Por isso acredito que no caso específico do futebol, deveríamos relaxar. Assim, podemos direcionar toda nossa energia para as sinapses cerebrais e, assim, analisarmos com todos os neurônios  nossas opções de voto em outubro. Isso sim determina o sucesso ou fracasso da país.

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Jornalista. Discursos prontos para a agradar a opinião pública me incomodam.