Episódios como o do TUF dão munição a quem não gosta de MMA

sonnen
Reprodução/Facebook

Comecei a praticar artes marciais quando criança. Uma das primeiras coisas que aprendi no taekwondo, antes mesmo das primeiras lições de chute, foram os cinco princípios da luta coreana: cortesia, integridade, perseverança, auto-controle e espírito indomável.

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Crianças, não compreendíamos direito muito bem o que esse cinco pontos significavam. A exceção era o auto-controle. Sabíamos, ou melhor, aprendemos que tudo o que era ensinado no dojang era para ser usado como ferramenta de defesa, em uma eventual adversidade. Nunca para agressão gratuita.

Essas lembranças do passado me vieram à mente nesses últimos dias quando vi e li sobre a confusão entre os treinadores do “The Ultimate Fighter Brasil”. Não é novidade que Wanderlei Silva e Chael Sonnen têm uma rixa que estrapola o octógono do UFC.

Se você, leitor, caiu de paraquedas aqui, explico. Wand e Sonnen nunca se enfrentaram literalmente. Trocaram farpas via Twitter, ameaças por conta de insultos mútuos e chegaram às vias de fato durante as gravações do TUF Brasil 3, onde ambos são técnicos. O combate real, no octógono, está marcado para 5 de julho, em Las Vegas (EUA).

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A inimizade vem de muito tempo. Um vídeo de 2010, famoso, traz um bate-papo entre ambos em um carro. Na conversa, Wanderlei diz a Sonnen parar de criticar o Brasil, os irmãos Minotauro e Minotouro Nogueira, entre outras coisas. “Quem respeita não perde os dentes no Brasil”, disse Wand, em um “conselho”.

Nunca conversei com Wand nem com Sonnen. E acredito firmemente que o americano é falastrão dessa forma somente para se promover. E tem alguém que concorda comigo: Anderson Silva.

Em uma entrevista concedida a mim e a um amigo, o Spider falou o seguinte, ao ser questionado por nós sobre a relação com o americano:

“Ele vai ser o novo presidente dos Estados Unidos. Ele é malandro, político, consegue se promover. Ele não é um atleta que obtém grandes resultados, mas sabe se vender. Sabe usar a máquina por trás do UFC, e isso é o que falta aos outros atletas. Ele é muito inteligente.”

Isso não é criação minha. É uma frase literal de Anderson Silva, que, aliás, não demonstrou nenhum rancor sobre Sonnen, que fez pesados ataques à família do brasileiro.

Thrash talk. É disso (também) que vive o UFC. Mais do que um circuito de artes marciais mistas, o UFC é uma empresa que, como todas, busca o lucro. Ter um cara tão midiático quanto Chael Sonnen para vender lutas é algo vital para a companhia.

O currículo de Sonnen comprova seu talento de promotor. Desde o início da segunda e atual passagem pelo UFC, em 2009, o americano já disputou o cinturão em três oportunidades. Duas contra Anderson Silva (no UFC 117 – em 2010, onde quase venceu e foi finalizado por um triângulo no 5º round – e no UFC 148, onde foi nocauteado no 2º round) e uma contra o americano Jon Jones (no UFC 149, onde também foi nocauteado). Detalhe importante: da segunda derrota para o Spider, Sonnen foi direto da luta contra Jones. Para isso, subiu dos médios para os meio-pesados e furou a fila da categoria de cima. Tudo graças à habilidade fora do octógono.

Justiça seja feita. Sonnen não é mau lutador. Mauricio Shogun, finalizado pelo americano com uma guilhotina em agosto do ano passado, que o diga. Mas fato é que o americano tenha mais a ensinar fora do que dentro dos combates. O que é muito ruim.

Episódios como o do TUF dão munição a quem não gosta de MMA. Um colega de trabalho constantemente compara o UFC ao antigo telecatch. Difícil contrapor tal posição depois de um papelão como o de Sonnen e Wanderlei.

Voltando às reminiscências, me recordo também de uma música que constumava tocar a cada treino de muay thai, em um passado bem mais recente do que as aulas de taekwondo. O recado é claro: “briga de homem é no tatame”. Que Sonnen e Wanderlei tenham aprendido a lição.

BISPING x KENNEDY

O inglês Michael Bisping também joga no time do thrash talk. E o inglês de 35 anos divide a principal luta da noite do UFC Fight Night desta quarta-feira (16) contra o americano Tim Kennedy.

Bisping é um bom lutador dos pesos médios e que costuma perder lutas que o credenciariam a disputas de cinturão (uma delas, para Chael Sonnen, em 2012. Com a vitória, o falastrão americano encarou Anderson Silva pelo título). Após ser nocauteado por Vitor Belfort em janeiro do ano passado, em São Paulo, se recuperou e derrotou Alan Belcher em abril. Desde então, não lutou mais. Ele tem 24 vitórias e cinco tropeços no cartel.

Último campeão dos médios do Strikeforce, Tim Kennedy vem de três vitórias consecutivas, duas delas, no UFC. Ele encerrou a participação no Strikeforce guilhotinando Trevor Smith. No octógono, bateu dois brasileiros: o astro do jiu-jitsu Roger Gracie por pontos e Rafael Sapo, por nocaute. O sargento das Forças Especiais tem 17 vitórias e quatro derrotas no cartel.

Bisping está parado há mais tempo e isso pode pesar contra o britânico. Um ano mais novo (34), Kennedy fez o último combate em novembro e deve estar com o gás mais afiado que o rival. Contudo, aposto em vitória do inglês por decisão, pela experiência e habilidade na trocação que, embora não tenha pressão suficiente para não fazer dele um nocauteador, o deixa em situações favoráveis para decidir lutas nos pontos.

 



Jornalista, editor do Torcedores.com. Passagens pelos jornais Metro, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Marca Brasil, Agora São Paulo, Diário de S. Paulo e Diário do Grande ABC.