Não precisamos do futebol-arte, temos o Muricybol

A nova fase do São Paulo é uma realidade. As coisas mudaram de setembro para cá – e para melhor, graças ao bom Deus e apesar de Juvenal Juvêncio.

Mas parece que os especialistas ainda não sacaram o que está acontecendo. O time está mais confiante? Sem dúvida que sim. Os jogadores se arriscam mais ao ataque? Com certeza. Isso tudo é por causa do Muricy? Óbvio. Só que botar as boas novas na conta das supostas técnicas motivacionais do treinador, como os analistas descolados vêm repetidamente proclamando, é um pouco como acreditar em vida após a morte. Pode ser verdade, mas pode ser falso. O que é certo neste caso, é que o renascimento tricolor atende pelo nome de Muricybol.

Quase uma figura folclórica dentro do futebol moderno, o Muricybol de fato resolveu as maiores deficiências do São Paulo, que vinham desde o começo do ano: o meio campo inexistente e a linha de quatro defensores que podia ser tudo, menos uma linha de quatro defensores. A equipe era o caos e a desordem em campo e, em situações assim, lógico que as boas jogadas só saíam em lampejos de criatividade individuais, que, com menino Lucas curtindo a vida em Paris e com Osvaldo em estado de sono profundo, eram raros.

Muricy, tal qual o FMI desembarcando em um país em crise de insolvência financeira, chegou ao Morumbi e aplicou seu remédio, que inclui três zagueiros, dois alas e muita retranca. Além disso, peitou a torcida e a diretoria e não ficou improvisando na hora de escalar jogadores, que era uma constante nas gestões anteriores. E para o azar dos descrentes, funcionou. O time parou de tomar gols e cada bola parada virou uma esperança, mesmo que pequena, de embolsar os três pontos. A lição de casa estava feita, o moral dos jogadores subiu e as frases de efeito voltaram a dar o tom nas coletivas.

E ninguém aqui está negando que a vinda de um cara mais boleiro, mais parça da galera, que parece ser o estilo Muricy de ser, segundo relatos dos próprios jogadores, não tenha a ver com a mudança do espírito da equipe. O caso de Paulo Henrique Ganso é o mais óbvio de todos. Mas o tal “moral dos jogadores” não muda só com um novo treinador na área, da mesma forma que não se explica macroeconomia só com taxa Selic. Sem falar que essa é uma explicação muito simplista e simplória, um bordão no universo dos comentaristas esportivos que não serve nem para dar umas risadas.

Talvez um dia o Muricybol, esse ser tão caçoado pela crônica esportiva e odiado pela massa de torcedores, ganhará seu reconhecido lugar ao sol. Mas, por enquanto, os analistas descolados ainda têm medo de admitir suas virtudes. É acima de tudo um futebol eficiente, nada bonito, mas que funciona com alguns efeitos colaterais. Um deles é que todo jogo é um risco de ataque cardíaco e há grandes chances de explosões de fúria assassina por parte dos torcedores, mas ainda assim é melhor do que a garantia natural da derrota.



Jornalista, são-paulino e caneleiro